'Já mataram uma juíza e agora ameaçam minha vida', diz deputado perseguido

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Image caption Freixo pretende ficar fora do Brasil por apenas algumas semanas

A poucas horas de deixar o Brasil após uma série de ameaças de mortes, o deputado estadual do Rio de Janeiro Marcelo Freixo (PSOL) disse que as milícias já são uma ameaça direta ao poder público no Brasil.

Em entrevista à BBC, ele disse que sairá do país por menos de um mês e que continuará sua campanha para expor os grupos formados por policiais, bombeiros, soldados, seguranças e autoridades e que controlam comunidades no Estado.

O deputado, que presidiu, em 2008, a CPI destinada a investigar a ação das milícias, afirmou que o assassinato da juíza Patrícia Acioli, com armas da polícia, foi um recado claro ao Estado democrático de direito.

"Já torturaram jornalistas, já mataram uma juíza e agora ameaçam minha vida como parlamentar", afirmou Freixo. Ativista de direitos humanos, seu trabalho inspirou um dos personagens do filme Tropa de Elite 2.

BBC - Por que o sr. vai sair do Brasil?

Marcelo Freixo - Porque recebi sete ameaças de morte em outubro. Foi um aumento muito grande dessas ameaças neste momento. Por isso aceitei o convite da (ONG) Anistia Internacional para passar uns dias fora. O tempo suficiente para fazer um ajuste da minha segurança aqui no Rio de Janeiro, para que eu possa voltar e continuar meu trabalho e, de alguma maneira, continuar denunciando tudo o que está acontecendo aqui no Rio.

BBC - O sr. já está fora do país?

Marcelo Freixo - Ainda não, mas vou hoje.

BBC - Pode dizer para onde está indo?

Marcelo Freixo - Não, não posso.

BBC - O sr. tem recebido ameaças...

Marcelo Freixo - Sim, recebo ameaças desde 2008 porque presidi a CPI que investigou as milícias. Mas neste mês de outubro foram sete ameaças, então houve uma intensificação muito forte. Por isso aceitei esse convite.

BBC - De onde vêm essas ameaças?

Marcelo Freixo - São das milícias, várias milícias. Tenho ameaças que chegam de vários lugares, mas é sempre uma ação miliciana. São os grupos milicianos que foram investigados em 2008.

BBC - Você tem algum outro dado? Quais são essas milícias? De que território do Rio de Janeiro?

Marcelo Freixo - Principalmente da zona oeste do Rio.

BBC - São grupos formados por policiais em atividade ou aposentados?

Marcelo Freixo - Eles são controlados por policiais em atividade. Há um informe da CPI de que teve uma investigação que fizemos que levou à prisão de mais de 500 membros de milícias aqui no Rio. Por isso recebo essas ameaças. Porque vários de seus líderes foram presos pela investigação que fizemos.

BBC - Tudo isso e também o assassinato de uma juíza no Rio, algo inédito. O sr. acredita que isso mostra que as milícias estão se tornando um desafio direto ao poder público no Brasil?

Marcelo Freixo -Sim, sem dúvida nenhuma. A milícia é um desafio ao Estado democrático de direito. É uma máfia estabelecida. Mataram a juíza, usando as armas da polícia, a munição da polícia. Foi uma mensagem ao Estado democrático de direito. Já torturaram jornalistas, já mataram uma juíza e agora ameaçam minha vida como parlamentar.

BBC - Que tipos de negócios essas milícias operam?

Marcelo Freixo - Transporte alternativo de microônibus, comércio ilegal de gás de botijão, ligação clandestina de TV a cabo, extorsão direta dos moradores e cobrança de impostos. São muitas atividades econômicas. E o domínio do território deles é muito forte.

BBC - O sr. disse em uma entrevista ao jornal britânico The Guardian que não faz esse trabalho por ser um "herói", mas por ser sua "obrigação". Agora que está deixando o Brasil, como se sente?

Marcelo Freixo - Vou sair por pouco tempo. Volto ainda neste mês de novembro. Ficarei menos de um mês fora. Volto e vou continuar fazendo esse trabalho.

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