França julga Carlos, o Chacal, por ataques a bomba há 30 anos

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Teve início nesta segunda-feira em Paris, o julgamento do venezuelano Ilich Ramirez Sanchez, mais conhecido como "Carlos, o Chacal", que chegou a ser um dos acusados por terrorismo mais procurados do mundo.

Carlos está sendo julgado pela sua participação em quatro ataques a bomba que mataram 11 pessoas no país no início da década de 1980: contra um trem que ligava Paris a Toulouse, a sede de um jornal na capital francesa, uma estação ferroviária em Marselha e um trem de alta velocidade.

Além dos 11 mortos, os ataques ocorridos entre 82 e 83 deixaram cerca de 150 pessoas feridas. Se culpado, Carlos pode receber sua segunda pena de prisão perpétua.

Desde 1997, o auto-denominado "revolucionário internacional" de 62 anos cumpre pena de prisão perpétua pelo assassinato de dois policiais e um informante realizados em Paris, em 1975, quando Carlos operava na clandestinidade como parte da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP).

Em entrevista ao jornal venezuelano El Nacional, publicada neste domingo, Carlos diz ter cometido mais de cem atentados, que teriam causado a morte de entre 1,5 mil e e 2 mil pessoas. Segundo seus próprios cálculos, 10% de suas vítimas eram civis.

Carlos é um dos últimos exemplares de uma linha de revolucionários de extrema-esquerda que marcou o imaginário romântico-comunista no século 20 e a defesa da causa palestina, nas décadas de 1970 e 80.

Carreira

Durante anos, ele foi o nome mais famoso do chamado terrorismo internacional, embora poucos conhecessem seu rosto. Descrito como "megalomaníaco" e "egocêntrico" por seus detratores, Carlos virou personagem de livros, documentários e filmes.

A ligação com o comunismo vem de família. Seu pai era um advogado marxista venezuelano, que decidiu dar a cada um dos três filhos um dos nomes verdadeiros de Lênin - a Carlos, coube Illich, segundo nome do líder da revolução bolchevique (Vladimir Illitch Ulianov).

Sua carreira de guerrilheiro começou na Jordânia, onde recebeu treinamento e teve seu primeiro contato com a FPLP, após uma etapa de estudos acadêmicos em Moscou.

O nome de guerra "Carlos" surgiu pouco depois, quando o venezuelano passou a integrar as operações exteriores da FPLP e a realizar atentados contra alvos ligados a Israel.

Carlos ganhou fama na Europa ao ser apontado como autor da tentativa de assassinato do irmão de um rico empresário judeu em Londres, em dezembro de 1973. Um mês depois, teria sido o responsável pela explosão de uma bomba em uma agência bancária também na capital inglesa.

O apelido de Chacal foi dado pela polícia britânica, que ao revistar um de seus esconderijos, encontrou um exemplar do livro O Dia do Chacal, do inglês Frederick Forsyth.

Direito de imagem AFP
Image caption Carlos, o Chacal, já cumpre prisão perpétua por morte de agentes franceses e informante libanês

Em 1975, Carlos realizou seu golpe mais ousado. Junto com outros seis militantes, ele tomou de assalto a sede da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), em Viena, onde ocorria uma reunião de ministros de diversos países.

Com dezenas de reféns sob a mira de fuzis, Carlos exigiu, e conseguiu, um avião para deixar a capital austríaca, rumo a Argel.

Após libertar parte dos reféns, o grupo rumou para Trípoli, mas foi impedido de desembarcar por ordem do então líder líbio coronel Muamar Khadafi. Finalmente, o comando retornou para a Argélia, onde libertou o restante dos sequestrados e recebeu asilo do governo local.

Carlos voltou à ativa alguns meses depois do sequestro, embora tenha abandonado a FPLP por não ter obedecido ordens superiores e ter aceitado o pagamento de resgate pelos reféns da Opep. Com seu próprio grupo, ele continuou sua série de cem atentados em prol de causas anti-imperialistas, muitos deles na França.

A carreira de Carlos, o Chacal, terminou em 1994, quando vivia no Sudão. O governo sudanês permitiu que forças especiais francesas o capturassem em seu território e o levassem para Paris, sem que houvesse necessidade da abertura de um processo de extradição.

O ato mais recente de rebeldia do homem que aprecia charutos cubanos e não vive sem seus cachecóis de seda ocorreu no mês passado.

Do telefone da prisão da prisão de Santé, em Paris, Carlos deu entrevista a uma rádio francesa, contando que seu novo companheiro de cárcere era o ex-ditador panamenho Manuel Noriega.

Como punição, voltou a ser transferido para a solitária, onde já cumpriu grande parte de sua pena.

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