Berlusconi diz que renunciará após aprovação de pacote de austeridade

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Image caption A pressão sobre Berlusconi se soma à inquietação dos mercados com a enorme dívida pública do país.

O primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, confirmou nesta terça-feira que irá renunciar ao cargo assim que o Parlamento aprovar o pacote de austeridade proposto pelo governo.

Os rumores de renúncia de Berlusconi ganharam força após uma disparada nos custos da dívida italiana, cujos títulos de dez anos já estão pagando 6,5% de juros anuais (se ultrapassar o patamar de 7% o governo da Itália corre risco de calote).

A renúncia já era esperada na manhã desta terça-feira, quando o governo enfrentaria uma votação-chave no Parlamento.

Berlusconi, no entanto, conseguiu aprovar as contas do orçamento do Estado de 2010, ganhando a confiança do Parlamento para ainda permanecer no cargo. A derrota forçaria sua demissão imediata.

A vitória do governo ocorreu com 308 votos a favor e uma abstenção, depois que a oposição retirou-se da votação. No entanto, o resultado indica que Berlusconi aparentemente perdeu a maioria no Parlamento.

O pacote de austeridade deve ser aprovado nas próximas semanas.

A pressão sobre Berlusconi se soma à inquietação dos mercados financeiros com a enorme dívida pública do país.

Nesta terça-feira, Umberto Bossi, líder da Liga do Norte, um dos partidos da coalizão de governo de Berlusconi, se juntou a outros políticos da Itália pedindo a renúncia do primeiro-ministro.

Enquanto isso, os juros para os títulos de dez anos da dívida italiana subiram para 6,73%, levando o custo para a tomada de empréstimos por parte do governo a seu ponto mais alto desde a criação do euro, em 1999.

Dívida astronômica

Teme-se que as dúvidas sobre a capacidade italiana de honrar os compromissos de sua dívida astronômica gerem uma crise política como a que está abalando a Grécia.

No entanto, analistas veem a situação com maior preocupação do que episódios passados da crise europeia. Isso porque a Itália é a terceira maior economia da zona do euro.

Segundo o editor de Europa da BBC, Gavin Hewitt, a crise italiana pode ser explicada de uma maneira simples: os mercados duvidam que Berlusconi tenha credibilidade para implementar as reformas que reduzirão a dívida do país e gerarão crescimento.

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Image caption Líderes políticos italianos também vêm pedindo a renúncia do primeiro-ministro

Sem isso, investidores consideram que o país está se encaminhando para um cenário onde os custos de tomar empréstimo se tornarão insustentáveis e o país precisará de um pacote de resgate.

O problema, para Hewitt, é que a economia italiana é tão grande – em comparação com Grécia, Irlanda ou Portugal – que a zona do euro não terá capacidade de agir.

Fortuna e poder

Assim, com os indicadores econômicos jogando claramente contra o país, aumentaram as chances de a crise econômica acabar com a carreira política de Berlusconi – o protagonista da política italiana nas últimas duas décadas.

Após três mandatos, ele é o primeiro-ministro há mais tempo no poder na Itália do pós-guerra, assim como um dos homens mais ricos do país.

O premiê de 75 anos e sua família acumularam uma fortuna estimada pela revista Forbes em US$ 9 bilhões (R$ 14,9 bilhões).

No entanto, desde que Berlusconi voltou ao poder, em 2008, a economia está em crescente tensão, com uma dívida nacional de 1,9 trilhões de euros (R$ 4,5 trilhões).

Seu governo foi considerado lento em implementar medidas de austeridade em resposta à crise e seu envolvimento em escândalos sexuais e de corrupção foram vistos como distrações inoportunas em um momento crítico.

Empreendedor

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Image caption Ativistas ucranianas protestam contra Berlusconi, no centro de Roma

O talento empresarial de Berlusconi - evidente em um império que se estende pelas áreas de mídia, publicidade, seguros, alimentação e construção - se tornou prova suficiente para muitos italianos de que ele era apto para governar também o país.

O premiê também é dono de um dos clubes de futebol mais bem sucedidos da Itália, o Milan, e sua empresa de investimentos controla três das maiores redes de TV privadas do país. Como primeiro-ministro, ele tem ainda o poder de nomear os chefes dos três canais públicos da rede RAI.

Durante seu governo, Berlusconi conseguiu driblar uma série de escândalos sexuais, políticos e de corrupção, mas o fluxo constante de acusações contra ele fez com que muitos aliados e amigos se afastassem.

Sua segunda mulher, Veronica Lario, pediu divórcio em maio de 2009 e disse a um jornal que ela não poderia ficar com um homem que "se envolve com menores".

Em novembro de 2010, seu ex-aliado político Gianfranco Fini pediu que ele renunciasse, quando surgiram revelações sobre uma dançarina marroquina adolescente chamada Ruby.

Batalhas legais

Berlusconi, nascido em Milão, sempre afirmou que estava sendo perseguido pelas autoridades da cidade.

Ele foi acusado de desvio de verbas, de fraude fiscal e contábil e de tentativa de subornar um juiz, mas negou ter cometido qualquer crime e nunca foi condenado de forma definitiva.

Vários destes casos foram a julgamento. Em alguns deles, Berlusconi foi absolvido e em outros, foi condenado, mas o veredicto foi derrubado com recursos. Outras vezes, limitações legais fizeram com que os casos fossem abandonados.

Em 2009, o premiê estimou que em 20 anos ele havia comparecido 2,5 mil vezes a cortes, em 106 julgamentos, com um custo legal de 200 milhões de euros (cerca de R$ 450 milhões).

Seu governo aprovou reformas que alteravam a definição legal de fraude, mas parte de uma lei de 2010 que dava a ele e a outros ministros imunidade temporária foi derrubada pela Corte Constitucional da Itália, que deixou a decisão final a cargo dos juízes.

Nascido no dia 29 de setembro de 1936, Silvio Berlusconi começou sua carreira vendendo aspiradores de pó, e trabalhou como cantor em clubes e cruzeiros.

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