Ivan Lessa: O dente de John Lennon

Eu dou R$ 200 pelo dedão do pé esquerdo do canadense Michael Zuk, que diz exercer a profissão de "dentista cosmético". Qualquer pessoa, qualquer pedaço de uma pessoa com o sobrenome Zuk vale uma nota.

Como ando por baixo e não há como chegar ao Canadá, faço o meu lance assim de longe e meio na base da gozação, já que não sou um colecionador de pedaços dos outros, vivos ou mortos.

Michael Zuk. Entrou para a história. Só porque em bizarro leilão arrecadou um dente molar cariado do falecido John Lennon.

Segundo Zuk (bom título para um romance gráfico), o dente ficará exposto em uma urna transparente e, possivelmente, à prova de bala, e, parto para a especulação delirante, com dois guardas armados para proteger a peça rara contra a má informação de algum jovem fã que não entendeu blicas do romance Apanhador em Campo de Centeio, de J.D.Salinger, feito o jovem Mark Chapman que, em 1980, mandou bala no marido de Yoko Ono, privando o mundo do talentoso músico liverpudliano.

Enquanto Zuk, o dentista cosmético, embeleza bocas de homens e mulheres, em prol de um mundo que sorria mais bonito, no aparelho de som de seu consultório, meio baixinho, já ouço os compassos de imagine there's no heaven na voz de um baiano vencedor em concurso de calouros.

Zuk (também poderia ser um marciano de história em quadrinhos) gastou uma nota com o molar de Lennon. Os jornais estamparam fotos: lá está o bruto do dentão, amarelão, feioso como o quê, e, ainda por cima, cariado feio.

Zuk compareceu com perto de 20 mil libras, uns R$ 55 mil, para levar a peça para casa. A odontologia cosmética dá um dinheirão, concluímos serenos.

Os jornais contaram a trajetória do molar mancuniano. Em meados dos anos 60, Lennon, na certa em processo de embelezamento dental, para mais lindamente sorrir cantando para o sucesso global, e sendo cuidado por um Zuk britânico, teve arrancado o dente cariado pronta e eficazmente, podemos afirmar, e substituído por uma coroa digna de quem frequentava todas as paradas de sucesso.

Lennon se afeiçoara de uma de suas domésticas, Dorothy Jarlett, que supervisionava os trabalhos de limpeza de uma das muitas propriedades do ex-Betale, no caso, uma mansão que atendia pelo nome de Kenwood, no condado de Surrey.

Tamanha e tão calorosa era a intimidade entre os dois (Lennon só a chamava de "Tia Dot") que o generoso Beatle, após a extração do dente cariado, deu-o para ela para que esta, por sua vez, desse para sua filha, uma tremenda fã da banda.

Tudo isso sabemos graças à seriedade do leilão que, para cada peça vendida, oferecia junto um certificado de procedência devidamente verificado e autenticado por quem cuida dessas coisas.

Paul Fairweather, diretor da Omega Auctions, responsável pelo leilão, declarou à imprensa ser um dos objetos mais estranhos que passaram pelo, ou por perto, do martelo do leiloeiro.

Talvez porque não saiba que em outras épocas, outros leilões, foram vendidos: o pênis de Napoleão, 1.800 libras, em 1977; uma boa parte da cabeleira do jovem ídolo Justin Bieber (foi para a caridade, dizem), por 25 mil libras; o cérebro de Mussolini, 13 mil libras; um jarro do ar respirado por Angelina Jolie, 330 libras; a cabeleira de Che Guevara, arrancada de seus restos mortais, foi vendida por 58 mil libras em 2007; e uma mecha de cabelos do "rei" Elvis Presley vendida por seu barbeiro por 1.055 libras.

Tudo isso, quero crer, são bons investimentos. Eu, no entanto, insisto, não estou interessado em lucros. Eu quero porque quero o dedão do pé esquerdo do Zuk. Cismei. São dessas coisas.