Vendedores de TV via satélite lucram com pacificação na Rocinha

Moradoras observam blindado em rua da Rocinha diante de cabos de ligações clandestinas Direito de imagem AFP
Image caption Blindados da polícia começaram a entrar na Rocinha na madrugada deste domingo

O sobe e desce da polícia não intimidava a vendedora, que com mais alguns colegas seguia conversando com os moradores da Rocinha oferecendo TV por assinatura em pleno domingo.

“Acordei às quatro da manhã pra acompanhar a ocupação pela TV. Quando deu oito horas e eu vi que estava tudo tranquilo, vim aqui para vender”, contou.

Não foi por acaso: ela já tinha experiência no complexo do Alemão, onde também vendeu TV por assinatura via satélite para os moradores logo depois da ocupação.

“Quando a polícia entra, logo começa a cair o ‘gatonet’ e aí o pessoal que não quer ficar sem TV apela para a gente. Já vendi cinco assinaturas hoje”, comemora.

‘Gatonet’ é o apelido dado nas favelas à venda irregular do sinal das TVs pagas que costuma ser captado direto dos satélites e redistribuído no emaranhado de cabos e fios que é uma das marcas registradas das grandes favelas.

Quando a polícia entra, cabos irregulares acabam cortados e diversos “operadores” saem do negócio, temendo punições.

A vendedora de TV por assinatura quer aproveitar a onda de mudança que vem com a pacificação, mas por segurança prefere respeitar algumas regras básicas da favela. Quando a reportagem pergunta seu nome, ela pensa por alguns segundos e diz: “Coloca Maria. Só Maria.”

'Teste interessante'

Image caption Chegada da polícia leva a corte de cabos irregulares e saída de operadores ilegais

A antropóloga Mariana Cavalcanti, da Fundação Getúlio Vargas, observa que a capacidade de as favelas desenvolverem uma economia formal e se integrarem à vida da cidade vai ser uma das chaves para o sucesso das operações de pacificação.

“A Rocinha vai ser um teste bem interessante, porque é uma das favelas mais complexas do Rio de Janeiro, com muita atividade econômica”, disse. “A pacificação abre as portas de um novo mercado consumidor para as empresas e cria novas possibilidades de novos serviços para a população.”

A equipe da defensoria pública que foi acompanhar a ocupação também sentiu a grande demanda da população da Rocinha por serviços. “Em todo lugar por que passávamos, as pessoas nos paravam para perguntar alguma coisa”, conta o defensor público do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos (Nudedh), Henrique Guelber, que coordenou a equipe de 13 advogados que visitou a comunidade.

No entanto, os defensores não constaram nenhum caso de violência ou abuso de poder da parte dos policiais, o principal motivo para a presença deles na operação. “Não constatamos nenhuma situação dessas nem recebemos denúncias”, disse Guelber.

Mas apesar de iniciado o processo de pacificação, os moradores da comunidade continuam muito resistentes a falar sobre suas impressões a respeito das mudanças na Rocinha mesmo sob anonimato.

“Não sei de nada. E por aqui é melhor esperar quieto para ver o que vai acontecer”, disse um morador.

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