Direto da Rocinha: 'Só acredito na pacificação quando não tiver mais gente do tráfico aqui dentro', diz morador

Policial durante ocupação da Rocinha Direito de imagem Reuters
Image caption Ocupação da Rocinha aconteceu neste domingo, sem resistência do tráfico

Morador da Rocinha há mais de 30 anos, P.J. conversou com a BBC Brasil pelo telefone para falar sobre a ocupação da comunidade por forças policiais, que devem instalar no local uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).

P.J, que pediu anonimato, concordou em fazer um diário para a BBC Brasil, contando o que se passa no local antes, durante e depois da ocupação. Leia abaixo seu depoimento:

13/11/2001 - Domingo

"A ocupação foi tranquila. Estávamos apreensivos, sem saber o que ia ocorrer. Ontem as pessoas estavam fazendo filas nos mercados, comprando mantimentos para ficar em casa hoje, num clima quase de guerra.

Mas foi tranquilo, não teve tiro, não teve barulho de tiro. Eles entraram na hora programada. Às 4h os blindados subiram.

Helicópteros sobrevoaram a comunidade jogando panfletos, pedindo para a população ajudar a polícia, para dizer onde tem deposito de armas, ajudar a polícia no que for preciso.

Não houve resistência, mas em alguns lugares da favela teve óleo derramado na pista por remanescentes do tráfico, algum fogueteiro, para tentar dificultar a subida dos blindados da polícia.

A TV clandestina acabou, ficou muita gente sem TV, então as pessoas estão se informando mesmo é pela internet, por e-mail, pelo Facebook. Eu vi várias fotos de ruas da Rocinha, postadas por amigos para mostrar como estava a situação, se o local está com luz ou não, se tem abuso da polícia ou não, ajudando a divulgar o telefone da corregedoria caso houvesse algum abuso. A comunidade está unida. Acho que a grande maioria está a favor (da ocupação).

Eu acredito que ainda exista gente do tráfico dentro na favela. Agora ou eles vão sair ou a polícia vai achar essas pessoas aos poucos.

É aquele lance que eu falo: só acredito na pacificação mesmo quando não tiver mais essa gente aqui dentro. Enquanto elas estiverem aqui dentro, vamos ficar ansiosos, porque ninguém sai do tráfico de uma hora para outra. Então a gente fica meio com receio.

Ainda tem algumas dessas pessoas que ainda continuam, mas a gente vai ver com o tempo se elas vão sair ou não. Por isso que a polícia está pedindo ajuda da população, para que essas pessoas sejam denunciadas e possam ser presas.

Vai ser uma pacificação entre aspas. Sabemos que o tráfico de drogas nunca vai acabar. Enquanto houver usuários, não vai acabar. Vamos esperar para ver. O que a gente não quer mais ver é bandido armado, impondo alguma coisa.

Mas com a polícia dentro da favela, o poder público vai poder ajudar, vai haver mais ajuda do governo, escolas, os professores vão querer dar aula lá, não vão mais ficar com medo do tráfico, de tiroteio.

Tomara que isso aconteça e que não seja jogada de político, porque no ano que vem tem eleição. A gente que não é bobo aqui dentro sabe o que está acontecendo."

12/11/2011 - Sábado

"O clima é de total apreensão, porque está chegando a hora. À noite, você não vê muita gente na rua e os bares estão fechando cedo.

A gente não sabe quando a polícia vai entrar e de que forma vai entrar: se vai ser com truculência ou se vai ser de forma pacífica.

Algumas pessoas que têm lugar para dormir fora da comunidade – em casa de parente, por exemplo –, estão saindo da favela e levando os filhos.

Se eu tivesse condição, também estaria fora. Mas a gente fica com medo de alguém entrar na nossa casa e quebrar tudo.

Tem gente que está deixando de trabalhar e ficando dentro de casa para evitar furtos de eletrodoméstico, como aconteceu no Morro do Alemão, e para receber a polícia quando eles baterem na porta e quiserem fazer revista.

Acho que 80% das pessoas na Rocinha concordam com a estratégia da polícia de avisar antes da invasão. Sem aviso, o banho de sangue seria muito maior.

Só a possibilidade de uma UPP na Rocinha já está fazendo as coisas se valorizarem. Tem casa que custa R$ 60 mil, R$ 70 mil na favela.

Se a UPP entrar aqui, como estão dizendo, as coisas vão se valorizar ainda mais. Vai ter um boom imobiliário aqui. Quem tem sua casa está bem; quem não tem, vai ser difícil comprar.

Eu tenho muito tempo de favela, eu quero ver mudança. Vi meu primeiro cadáver aos oito anos de idade. Quem nunca viu, não viveu a realidade da favela."

11/11/2011 - Sexta-feira

"O clima na Rocinha está tenso e confuso porque os moradores não sabem o que está realmente por vir.

Alguns estão com medo de deixar suas casas e terem objetos como televisõe e eletrodomésticos furtados, como aconteceu na tomada do Complexo do Alemão.

Temem também abusos de autoridade por policiais. Não estou com medo, mas estou apreensivo. Minha família toda vai ficar em casa. Não tenho saída. Tenho de trabalhar no domingo.

Quero dar uma vida digna aos meus pequenos, com a certeza de uma Rocinha melhor. Mas só vou mesmo acreditar na vida sem a influência do tráfico quando puder andar com meus filhos tranquilamente.

Nunca vivi algo parecido, uma sensação de liberdade, de poder ir e vir, de falar para o taxista que moro na Rocinha e não mais dizer que moro em São Conrado só para ser levado. Estou muito otimista, muito mesmo.

Sabemos que o tráfico continua em favelas da UPP, só que não armados nem impondo nada a ninguém. Da polícia, eu espero uma ação tranquila, que eles façam o trabalho deles.

Acho que uns 90% dos moradores apoiam a instalação da UPP. Tenho mais de 30 anos de Rocinha.

Já faz uns cinco anos que não se vê polícia subindo o morro. Não sabemos dos possíveis problemas da pacificação.

Nunca vivemos isso, e só sabemos pela imprensa o que aconteceu em outros morros. Vamos ver no domingo o que vai acontecer.

O morro hoje está numa aparente tranquilidade."

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