Ivan Lessa: Ministério das Perguntas Cretinas

Nas últimas três décadas eu compareci pelo menos umas seis vezes no Consulado Brasileiro aqui em Londres. Sempre por motivo justo. Renovação de passaporte, autenticação de documentos, por aí.

Sempre fui bem recebido, tratado com eficiência e fidalguia. Antes, as filas eram menores, é o único comentário que posso fazer.

O Ministério do Exterior britânico, na quinta-feira da semana passada, divulgou pela imprensa um documento que foi parar nos jornais pedindo por favor para que tantos turistas britânicos, ou cidadãos de outros países, procurassem não perder o tempo de funcionários de embaixadas, consulados, escritórios e outros legítimos representantes do Reino Unido no Exterior, com perguntas – e aqui me aposso da entidade criada pelo grande Millôr Fernandes, quando este ainda se assinava Vão Gogo – que só caberiam num "Ministério de Perguntas Cretinas", mas que eles diplomaticamente chamam de "indagações bobas".

Alguns jornais se fartaram com o assunto, deixando de lado momentaneamente outras cretinices ou tolices, tais como a eurozorra, a campanha anti-capitalista e novidades para as Olimpíadas do ano que vem, que aqui serão realizadas.

À maneira da velha tradição jornalística de abrir espaço para bobagem dita ou escrita por estudante ou classe média emergente, enumero algumas das, por certo, centenas ou, quem sabe, milhares de questões escancaradamente levianas levadas aos representantes de Sua Majestade, a Rainha Elizabeth, em terras do além-mar.

O tempo e o que esperar dele, não fossem os questionadores britânicos, é um dos assuntos mais levantados, por telefone. Há uma grande afobação para saber a temperatura e se vai chover ou não amanhã seja lá onde for.

Pegou manchete a pessoa (sempre anônima, pois o Foreign Office sabe lidar com essas coisas) que queria saber que número de sapato o príncipe Charles usa.

Também aquele, ou aquela, que pediu o número do telefone de Phil Collins, figurinha que deve ser evitada a todo custo, não importa o contexto. E não tive de ligar para ninguém para fazer essa afirmação.

Há o sujeito afobado que queria notícias de sua dominatrix, desaparecida num aeroporto de cidade que não mereceu divulgação. Dominatrix, caso não saibam, é a senhora ou senhorita que, numa relação sado-masoquista, exerce ação, conforme a palavra indica, de violenta dominação, usando em sua prática, razoavelmente popular por aqui, de indumentária adequada à prática.

Em outra cidade, um cidadão britânico entrou afobado pedindo que o consulado agisse como corretor de imóveis para ele. Daria uma boa percentagem caso a transação fruísse.

No consulado na Bulgária, tarde da noite, o telefone tocou. Do outro lado da linha, um turista do norte do Reino Unido queixava-se do barulho infernal e inexplicável que faziam perto de seu hotel e pedia providências enérgicas imediatas.

Na Grécia, entre seus muito problemas, ligou uma pessoa pedindo não a intervenção com auxílio financeiro para salvar o país da bancarrota, mas sim para darem umas dicas de como construir um galinheiro.

No Estado da Flórida, outro queria saber o que fazer para se livrar de formigas em seu quintal.

Em Dubai, alguém, um xeque talvez, com viagem marcada para Londres, pedia auxílio no sentido de darem uma mãozinha para que seu cachorro de estimação passasse sem maiores empecilhos na alfândega dos aeroportos local e britânico.

Finalmente, já que isso está ficando cansativo, em Málaga, no sul da Espanha, uma senhora ligou, em horário de trabalho, ao menos, pedindo sugestão para um restaurante no centro da cidade onde se comesse bem a preços módicos.

Depois dizem que a vida de diplomata é moleza.