Egípcios mantém ceticismo quanto a militares, diz embaixador brasileiro

Confrontos entre forças de segurança e manifestantes no Cairo, nesta quarta (AFP) Direito de imagem AFP
Image caption Repressão a manifestantes provocou críticas internacionais

A população egípcia se mantém cética quanto às recentes concessões feitas pela junta militar governante e quanto à idoneidade das eleições parlamentares que começam na semana que vem. A avaliação é do embaixador do Brasil no Cairo, Cesário Melantonio Neto.

"Não surpreendem (os atuais distúrbios no país). Quando houve a revolução (que derrubou o presidente Hosni Mubarak), a população esperava um desengajamento rápido dos militares. Mas eles começaram a mostrar desejo de seguir no poder indefinidamente", opinou o diplomata brasileiro.

Na última terça-feira, após três dias consecutivos de violentos protestos na Praça Tahrir, que resultaram em mais de 30 mortes, a junta militar concordou em formar um "governo de salvação nacional" e aceitou agilizar o processo eleitoral do país, segundo relatos.

Grupos políticos e militares decidiram que as eleições parlamentares, agendadas para a partir da semana que vem, serão mantidas. E as eleições presidenciais, antes previstas para 2013, devem ocorrer até junho de 2012 – essa era uma das principais demandas dos manifestantes egípcios.

Ainda assim, na avaliação de Melantonio, permanece viva entre a população a sensação de que os militares continuarão tentando manter seu poder - eles controlam entre 20% e 40% da economia egípcia, segundo estimativas - e que políticos civis poderiam continuar sendo subservientes às Forças Armadas.

Correspondentes da BBC no Egito apontam que o tema é o principal dilema do futuro político do país: quem terá a palavra final no novo modelo governamental do país – o povo, via políticos eleitos, ou os generais?

Desde a derrubada da monarquia, em 1952, as Forças Armadas têm estado por trás de todos os governos do país. O próprio Exército pressionou pela renúncia de Mubarak quando percebeu que este havia perdido apoio popular. Desde então, a maior autoridade do país é o Conselho Supremo das Forças Armadas, agora questionada pelos manifestantes.

Trégua

A Praça Tahrir foi palco de novos protestos nesta quarta-feira, ainda que em menor intensidade que nos dias anteriores. Uma trégua foi declarada nos arredores do Ministério do Interior, onde haviam ocorrido os principais confrontos.

Melantonio confirmou que o Cairo está menos tenso que na véspera, mas agregou que são esperadas manifestações maiores na sexta-feira - apenas três dias antes do início das eleições parlamentares. Segundo o diplomata brasileiro, pairam dúvidas quanto à lisura das apurações, já que tradicionalmente pairavam suspeitas de fraude sobre os processos eleitorais ocorridos durante os 30 anos do regime de Mubarak.

Ao mesmo tempo, segue a indefinição quanto ao gabinete civil interino do país, que renunciou nesta semana.

Melantonio cita relatos de que Mohamed El-Baradei, ex-chefe da agência nuclear da ONU, teria sido convidado para o posto de premiê, mas negado - para manter a viabilidade de sua possível candidatura à Presidência e por causa da percepção de que o gabinete interino não tem autonomia em relação à junta militar.

Críticas externas

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Image caption Egito vive uma nova onda de protestos, agora contra os militares no poder

No front externo, crescem as críticas à repressão das autoridades aos protestos egípcios. Nesta quarta, a alta comissária da ONU para Direitos Humanos, Navi Pillay, instou as autoridades do Egito a "pôr fim ao claro uso excessivo da força contra manifestantes na Praça Tahrir e em outros lugares do país, incluindo o aparente uso impróprio de gás lacrimogêneo, balas de borracha e munição real".

O chanceler britânico, William Hague, também expressou preocupação pelos relatos de uso de gases considerados perigosos para conter os manifestantes.

Melantonio disse que o governo brasileiro vê com "preocupação" a situação egípcia, "diante do grande peso do Egito no Oriente Médio e de sua influência em toda a região".

A atual onda de confrontos é a maior no Egito desde os levantes que derrubaram Mubarak, em fevereiro. Os manifestantes pedem uma transição mais rápida a um governo civil e rejeitam propostas de mudanças constitucionais que, alegam, manteriam o poder econômico e político nas mãos dos militares.