Tensão aumenta no Cairo a poucos dias das eleições

Manifestante ateia fogo a carro durante a madruga em Alexandria (Foto: Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption Manifestante ateia fogo a carro durante a madruga em Alexandria

Faltando menos de uma semana para as eleições parlamentares no Egito, o clima de revolta contra o governo aumenta em várias cidades, em especial na capital Cairo. Desde sábado, manifestantes pedem a renúncia da junta militar que controla o país e de seu líder, marechal Mohamed Hussein Tantawi.

Desde o último dia 19, quando as forças de segurança tentaram remover dezenas de manifestantes acampados na praça Tahrir, no centro do Cairo, ativistas e simpatizantes de partidos políticos diversos compareceram em peso para ocupar o local.

Os confrontos entre manifestantes e polícia, que agora estão no sexto dia, já deixaram cerca de 35 mortos e mais de 2,5 mil feridos.

Em pronunciamento na TV, dois dos generais que comandam o país pediram desculpas à população pelas mortes de civis nos confrontos. Esta foi a primeira vez desde o início dos confrontos que integrantes da junta militar se desculpam pela violência usada na repressão dos protestos.

Nas ruas, a população continua desconfiada dos militares e já não confia na instituição que, até a revolução que tirou Mubarak do poder, era admirada e respeitada pelos egípcios.

Em cafés e locais de concentração de de pessoas para um momento de lazer, os rumores frequentes são de que os militares manterão seu domínio sobre o país, mesmo após a eleição de um novo governo civil.

Após rumores de que o pleito do dia 28 de novembro seria cancelado, o Conselho Supremo das Forças Armadas, que assumiu o controle do Egito após a queda do ex-presidente Hosni Mubarak em fevereiro deste ano, confirmou a realização das eleições na data marcada.

Regime continua

No centro do Cairo, Hashem Saad vende máscaras para manifestantes que se dirigem à praça Tahrir. De voz calam e sorridente, ele avisa aos clientes que há todo tipo de máscaras para diversos propósitos.

"Se vocês querem apenas acompanhar as manifestações, tenho máscaras baratas. Mas se querem ir combater a polícia, tenho um tipo de melhor qualidade", salienta ele.

Perguntado pela BBC Brasil sua opinião sobre a junta militar, Saad logo responde que depois da revolução do início do ano, os egípcios foram se dando conta de que somente tiraram do poder a cabeça do antigo regime.

"Estes que estão no poder, tanto o governo civil interino quanto os militares são parte do antigo regime. Nós queremos acabar o que começamos no início do ano", disse Saad.

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Image caption Soldado atira contra manifestantes na praça Tahrir, no Cairo

Sobre a crescente tensão, ele admite que a violência pode fugir ao controle e que os egípcios cansaram de tantas mortes.

"Mas estamos cientes de que só a força do povo nas ruas vai mudar a situação no país. Nestes meses pós-Mubarak, não vimos nada de concreto sendo feito, somente os militares fazendo manobras para garantir que mantenham poder e autonomia em relação ao governo civil".

Mais experientes

Em outros bairros do Cairo, como Zamalek, Dokki e Mohandisen, a vida segue normal. Para um desavisado, a impressão é de que as pessoas nao se interessam pelo que ocorre na praça Tahrir, símbolo da revolução que derrubou Mubarak.

Mas nas conversas em cafés e restaurantes, o assunto é o futuro político do país e os confrontos entre jovens e polícia nas imediações da Tahrir.

O advogado Mohamed el Bakri esclarece que a diferença desta "nova revolução" em relação à anterior é que os egípcios ficaram m ais experientes.

"Na outra, o país parou porque a população ficou incrédula, não sabia o que fazer e como lidar com as adversidades quando o Egito parou por conta de protestos, confrontos e mortes. Muitos se sentiram incomodados porque a vida não corria normalmente".

Segndo el Bakri, desta vez os egípcios lidam melhor com a situação, levando a vida normalmente enquanto na Tahrir está sendo decidido o futuro do país.

"Não que a gente não se importe. Pelo contrário, eu e outros estamos do lado dos manifestantes. Mas o país precisa continuar com sua vida normal, para que a economia e o cotidiano não parem como da outra vez"