Lucas Mendes: Papa Marx

Revoluções no Oriente Médio, agitação na Europa, governos em queda livre, 99% contra 1% nos Estados Unidos, redistribuição de renda, fim do capitalismo em 2012 e ninguém fala em Karl Marx?

Ele passou 17 anos escrevendo o roteiro da agonia e morte do sistema capitalista e agora que até economistas super conservadores americanos concordam que o fim esta próximo, ninguém fala no pensador mais influente do século 20?

Fala. A biógrafa Mary Gabriel está na praça com um livro sobre Karl Marx a mulher Jenny von Westphalen, os sete filhos legítimos do casal e um bastardo: “Love and Capital “ foi um dos cinco finalistas num dos maiores prêmios literários americanos na semana passada. Não ganhou.

Mary Gabriel já publicou duas aclamadas biografias de mulheres e decidiu escrever uma sobre as três filhas dos sete filhos de Marx que não morreram na infância.

Na pesquisa ela concluiu que seria impossível contar a história e deixar a mulher Jenny de fora. Mais adiante concluiu que Karl também era personagem indispensável.

A história é romântica e trágica. Aos 18 anos Karl, se apaixonou pela aristocrata Jenny, filha de barão, mulher mais cobiçada da cidade. Bonita, rica, viva, inteligente e culta. A paixão foi correspondida. Karl era "cabeça" mas não era modelo de beleza.

Mary rompeu o noivado com um aristocrata e durante sete anos teve um romance carnal, secreto, com Marx antes de casar. Os pais eram contra o casamento e obrigaram o noivo a assinar um acordo pré-nupcial pelo qual não seriam responsáveis pelas dívidas do futuro genro, um notório mau pagador.

Além disto, Marx tinha o desprezado lado judeu que a família abandonou com uma conversão para o filho entrar na escola.

Os Marx eram classe média afluente. O pai, advogado de prestígio, tinha boas relações com os pais de Jenny.

Karl estudou, era brilhante, poderia ter sido professor, advogado, ou profissional liberal, mas desde jovem ficou obcecado pelo sistema político-econômico - o capitalismo - que estava em construção na Europa.

Quando nasceu a primeira filha, nem ele nem Jenny sabiam o que fazer, e a mulher voltou com a criança para a casa dos pais.

Marx lançou um jornal que só circulou uma única vez , estava quebrado e endividado, vivendo às custas da extraordinária generosidade do amigo Friederich Engels, filho de um industrial milionário inglês.

Desempregado, perseguido, Marx perambulou pela Europa. Foi nesta fase, conta a escritora, que conheceu o comunismo francês e os economistas ingleses que reforçariam as fundações do materialismo dialético. Mas continuou pobre. Quando morreu a filha Franzisca, de um ano, não havia dinheiro para comprar um caixão.

Marx era um boêmio que curtia noitadas com amigos, gostava de dançar, de luxos, fofocas e teve suas infidelidades, tendo inclusive um filho bastardo, Freddy, com a empregada da família. Jamais reconheceu ou ajudou o filho.

Engels dizia que o filho era dele, nunca revelou o segredo, nem a mãe, Helene Demuth.

Quando Musch, o adorável e adorado filho de oito anos morreu, pai e mãe ficaram devastados. A autora Mary Gabriel acha que este sofrimento humanizou os textos de Marx. Dos sete filhos, quatro morreram na infância e das três filhas que sobreviveram, duas suicidaram. Só Freddy, o bastardo, viveu para testemunhar a revolução russa.

Durante nove anos, de 1852 a 1861, Marx foi correspondente do jornal New York Herald. Foi a única renda fixa que ele teve na vida, fora as mesadas de Engels.

Quanto ele estava enrolado com seus problemas, perseguições políticas ou credores - sempre dava o cano no aluguel -, Engels escrevia as colunas.

Sobre esta vida de jornalista, o livro Dispatches for The New York Tribune, de Jim Ledbetter, vai mais fundo do que o de Mary Gabriel.

Marx conheceu o editor americano Charles Dana, em 1848, em Colonia, que mais tarde encomendaria artigos sobre a situação na Alemanha. Era um jornalismo de ideias, sem entrevistas, ou fontes, mas que, além de ideias, abordava os assuntos principais da época como livre comércio, racismo nos Estados Unidos, pobreza, desigualdade social, guerra do ópio e outros abusos da coroa inglesa.

Nos Estados Unidos quase ninguém sabia que ele era o autor do Manifesto Comunista, até porque, quando foi publicado, não teve nenhuma repercussão aqui, nem mesmo na Europa. A fermentação viria mais tarde.

Os textos que incomodavam os governos e provocaram as perseguições de Marx foram os jornalísticos.

A publicação de O Capital, na época gerou mais decepção do que entusiasmo. Quase ninguém entendeu.

Mais tarde, conta Ledbetter, foi manipulado e interpretado à vontade pelos comunistas. Marxismo virou leninismo, stalinismo, trotskismo, maoísmo e outros ismos.

Marx ficaria chocado e provavelmente seria preso por Stalin na Rússia. Ele era um defensor de eleições livres e das liberdades civis.

Marx nunca viu um centavo de direito autoral. Depois da morte, em 1883, Engels e a filha mais nova Eleanor , a Tussy, reuniram os escritos dele em 50 volumes, sete deles só de textos jornalísticos.

Tussy se envenenou em 1898 quando soube que era traída pelo marido. Laura, a filha mais velha, herdou uma fortuna de Engels, mas se matou junto com o marido, em 1911, poucos meses depois de conhecer Lenin e a mulher Krupskaya, em Paris.

Dos Marx, a única testemunha da revolução russa de 1917, foi Freddy, sem Marx no sobrenome. Stalin queimou os arquivos de Freddy.

Love and Capital não pretende ser pioneiro de uma ressurreição marxista. Só quer contar uma boa história, mas com tanta revolução, recessão e depressão em volta, quem sabe?

Marx nunca disse exatamente quando o capitalismo ia morrer. Escreveu que a “revolução só pode acontecer quando as massas estiverem prontas, mas só podemos saber com certeza se as massas estão prontas quando criarem a revolução”.

Entendido.