Ivan Lessa: Cuidado, o Natal está aí!

Os primeiros sinais da malfadada data começaram a se fazer sentir em meados de novembro. Agora, adentrando dezembro, não há mais como escapar. Foram tiradas as luvas de pelúcia e tomem porrada, gente boa.

Blim-blom é isso aí que o senhor está vendo, “seu” Mané, que também os há por aqui. Jingobelizem-se porque dessa não há escapatória.

Não são apenas os grupos reunidos em festinha de escritório, bebendo mal e bolinando quem não devia, aqueles que dão o tom e o Vinícius.

O Natal se espalha pela terra como os zumbis da série de TV “Os Mortos Vivos”.

Se repararmos bem, dá para se ver claramente a semelhança entre um morto-vivo e um pai ou mãe nas compras. Aquele olhar vago, os dentes à mostra, as mãos crispadas.

Tudo isso para comprar um presente para o Zequinha, outros com seus equivalentes locais, enfeites para a árvore de matéria plástica, lembrancinhas para a família que vai se reunir no almoço do dia 25 para trinchar o presuntaço ou o peru comprado a preço de ocasião no açougueiro ladrão da esquina. Haja gemada, vinho vagabundo e televisão aos berros que aguente.

Aquela terrível hora das três da tarde. Todos enfastiados, sem nada a dizer, com aquela coroa de papel que vem dentro dos tradicionais crackers.

Cracker. Se você não puxou de um lado, deve ter visto em algum desses chatísssimos filmes que escolhem para passar no Natal. “A Noviça Rebelde”, “Mary Poppins”, qualquer coisa que tenha a Julie Andrews aporrinhando catita.

Cracker é aquele troço roliço e brilhante que se presta à imensa alegria de duas pessoas, em geral de ressaca de álcool ou saco cheio. Cada uma puxa de um lado até que o danado se parta com um estampido de traque-de-velha, e um dos dois palermões fique com a parte maior na mão.

No interior do cracker, juntamente com uma adivinhação (“O que é o que é que tem pernas mas não corre nem as abre por dinheiro algum?”), um mimo (um apito ou qualquer coisa que faça barulho e azucrine o gato) e uma coroa ou chapéu de papel crepom que os desgraçados participantes dos festejos natalinos devem usar até a bendita hora de ir para casa e poder discutir no particular com o cônjuge com ganas de matar em vez de ficar trocando desaforo e dando vexame na frente de todo mundo durante toda a duração do natalino almoço.

O cracker, depois do bolo de Natal empapado em conhaque vagabundo que se acende e quase bota fogo na casa inteira, é a segunda grande instituição do almoço de Natal.

Abrir os presentes é um dos maiores exercícios de hipocrisia que uma pessoa pode praticar. É quando os menores de 13 anos começam a aprender mais sobre as canalhices da vida. Deve-se abrir toda caixa ou embrulho com o maior cuidado, dobrar o papel meticulosamente e, antes de saber o que é (uma gravata, um tefone de plástico, nunca um laptop, videogame ou iPhone), já se ir sorrindo e dizendo, “Puxa, mas é exatamente o que eu queria!”.

Às 3 da tarde, os 15 minutos da Rainha na televisão discorrendo sobre um tema que uma comissão decidiu por ela. A importância da preservação das espécies, o aquecimento global, a solidariedade entre os povos, a aproximação entre as pessoas via as redes de comunicação social, por aí.

Embora seja repetida em outra estação uma hora mais tarde, ninguém presta atenção. A Rainha não é para dizer nada, basta ser Rainha e não usar a coroa de crepom.

Nunca sai resenha no jornal no dia seguinte. Ninguém sabe, ninguém viu, ninguém estava lúcido ou sóbrio suficiente para formar idéia e ter opinião a respeito.

O que há no dia seguinte, o Dia das Caixas, literalmente (não há saco para explicar, que o que tinha Bom Velhinho de vermelho, barbas e cabelos brancos conte suas origens), são as vendas e liquidações a preços de “Papai Noel ficou maluco” na loja tal.

Aí sim, a coisa brilha como estrela indicando manjedoura. Comprar besteiras desnecessárias a preços baixos é o grande motivador da data a que chamam, juntamente com outras, de magna.

Nas exclamações imortais de Scrooge, o esplêndido personagem criado por Charles Dickens, “Bah! Humbug!”