Papel de Ronaldo na Copa de 2014 será de embaixador, dizem especialistas

Ronaldo Fenômeno. Direito de imagem Reuters
Image caption Ex-jogador disse que não se desligará de sua empresa de marketing esportivo por causa da Copa

Ainda que o contrato inclua diversas atribuições administrativas, na prática o papel de Ronaldo Fenômeno no Comitê Organizador da Copa de 2014 (COL) será o de embaixador, avaliam especialistas.

Nesta quinta-feira, o empresário e ex-jogador de futebol foi oficializado como membro do recém-criado Conselho de Administração do COL, que será composto por ele, pelo presidente do comitê, Ricardo Teixeira, e por um executivo ainda a ser apontado.

Para o executivo na área de gestão esportiva José Carlos Brunoro, Ronaldo poderá abrir portas para o COL, fazer as relações externas e falar em nome da organização da Copa. Mas ele não deverá desempenhar funções administrativas.

"O nome dele como embaixador é interessante, porque em toda a Copa do Mundo você tem uma figura marcante do futebol fazendo o lado social do evento. Ele será um grande facilitador", disse o executivo, que é presidente da Brunoro Sports Business.

O técnico Carlos Alberto Parreira afirmou também que Ronaldo será um símbolo para a Copa do Brasil assim como Michel Platini foi para a da França e Franz Beckenbauer foi para a da Alemanha.

"Ronaldo tem um carisma muito grande, uma visibilidade enorme, sem dúvida vai ajudar o comitê a coordenar as coisas, abrir portas e ajudar com a experiência que traz de Copas do Mundo", disse Parreira à BBC Brasil.

Estrutura tríplice

Para Brunoro, a estrutura tríplice pensada para o Conselho de Administração é acertada. "Está faltando a figura do executivo, e essa pessoa não poderia ser Ronaldo", diz.

"A função do executivo precisa ser desempenhada por uma pessoa talhada para isso, por um CEO mesmo, que entenda de negócios e seja um executivo de alto nível. É como você ter a figura da rainha e, abaixo dela, um primeiro-ministro."

Brunoro diz ainda que falta no COL uma pessoa que centralize as decisões do comitê e tenha todas as áreas sob controle.

Se a organização tripartida entre um embaixador, um executivo e um presidente é a ideal, entretanto, por que essa estrutura só está sendo montada agora, a um ano e meio da Copa das Confederações?

"Isso eu também não entendi", diz Brunoro. "Já é um pouco tarde, mas não é tardio, digamos. Acho que a Copa só começa mesmo na Copa das Confederações, e se a gente passou esse tempo diagnosticando todas as necessidades, acho que ainda dá tempo".

COL recauchutado

A reestruração do COL é vista como uma forma de tirar dos holofotes o presidente Ricardo Teixeira, sobre quem pesam denúncias de corrupção, e melhorar as relações do comitê com Brasília, que deterioraram ao longo deste ano após discordâncias sobre os termos da Lei Geral da Copa.

Presidente do COL e da Confederação Brasileira de Futebol, Teixeira não tem a mesma proximidade com Dilma Rousseff que tinha com o ex-presidente Lula.

"Está faltando essa proximidade e isso vai atrasando as obras até um ponto de exaustão. Chega uma hora que não dá mais tempo", alertou Carlos Alberto Parreira.

Segundo o técnico, está faltando "um empurrãozinho" para abrir licitações e liberar verbas para estádios e aeroportos. "Sem dúvida o Ronaldo vai ser muito bem atendido em Brasília, vai abrir portas."

Técnico da seleção sul-africana no último mundial, Parreira compara o papel que o Fenômeno deve ter com aquele desempenhado em 2010 pelo chefe do COL naquele país.

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Image caption Escolha de Ronaldo para o COL pretende diminuir a atenção a acusações contra Ricardo Teixeira

"Na África do Sul, tudo era com o Danny Jordaan. Ele era o diretor do comitê de organização e era o grande interlocutor junto ao governo. O Ronaldo pode perfeitamente exercer esse papel. Ele é um homem de negócios, tem um importante passado."

Conflito de interesses

Ronaldo foi apontado para o cargo em meio ao debate sobre possíveis conflitos de interesses em relação à sua nova posição.

O Fenômeno é garoto-propaganda de diversas marcas – não necessariamente as mesmas que patrocinam a Copa do Mundo – e atua como empresário no setor, na agência de marketing esportivo 9ine.

Na coletiva de imprensa onde foi anunciado no novo cargo, o ex-jogador afirmou que não vai se licenciar da empresa nem romper o contrato com seus patrocinadores.

"Eu não sou mais influente hoje (estando) no Conselho de Administração do COL do que era ontem, quando não era. Tudo o que conquistei, todo dinheiro que ganhei foi jogando futebol e com a minha imagem. Não haverá conflito de interesse nem tráfico de influência", afirmou.

Para o executivo Brunoro, não há conflito se o Fenômeno se mantiver no papel de embaixador, ou seja, como uma figura representativa, sem participar dos processos decisórios.

"Como embaixador isso pode ser superado, como executivo, não. Na figura do embaixador não deve ter esse conflito, afinal de contas todo mundo tem sua vida pessoal e não deve abandonar tudo", pondera.

O conflito mais provável de ocorrer, para Brunoro, é entre o garoto-propaganda e seus patrocinadores pessoais. "O Ronaldo agora tem que ver como vai se explicar para eles. Porque agora se subentende que ele pertence à Copa, e não aos seus patrocinadores."

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