Cenário externo contribui para desaceleração do PIB e desperta pessimismo

Indústria brasileira em Manaus, em foto de arquivo (Ag. Brasil) Direito de imagem Ag. Brasil
Image caption Indústria foi um dos setores que mais sentiram a desaceleração econômica

A estagnação do PIB brasileiro no terceiro trimestre reflete, segundo especialistas, tanto as políticas adotadas pelo governo no semestre passado para conter a inflação – políticas que agora estão sendo sentidas com mais força – quanto um momento de pessimismo econômico internacional por conta da crise na Europa.

Dados do IBGE divulgados nesta terça-feira apontam que o Produto Interno Bruto do país avançou 0% em comparação com os três meses anteriores, após crescer 0,8% no segundo trimestre e 1,3% no primeiro.

A desaceleração do terceiro trimestre já era esperada – alguns economistas temiam até mesmo um recuo da economia.

Com isso, o PIB anual, de acordo com previsões, deve crescer em torno de 3% - bem abaixo dos 7,5% registrados em 2010.

"Uma parte da desaceleração era de se esperar, por conta da política monetária. A outra parte é a contaminação do ambiente internacional, que está pior do que se pensava", disse à BBC Brasil a economista Alessandra Ribeiro, da consultoria Tendências.

Há dois fatores internos que podem estimular o PIB do quarto trimestre: a redução recente da taxa de juros, de 11,5% para 11%; e um pacote federal de medidas de estímulo ao crédito e ao consumo, que prevê reduções no IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), no IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e no PIS/Cofins.

"(O pacote) vai ter efeito amortecedor (neste final de ano). Se não fosse isso, poderíamos ter uma queda na taxa de crescimento. São políticas para elevar a demanda (do consumidor interno) e compensar as quedas nas exportações", explicou Marcio Salvato, coordenador do curso de economia do Ibmec em Belo Horizonte.

Porém, para Rogério Mori, professor da Escola de Economia da FGV-SP, "o estímulo proposto levará um tempo. Terá efeito positivo, mas que só será sentido em 2012". Sendo assim, ele prevê um quarto trimestre de desaceleração semelhante ou ainda maior do que a verificada neste terceiro.

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Indústria

Um dos setores que mais sentiram a freada da economia foi a indústria: medição do IBGE aponta que a atividade industrial caiu 0,9% no terceiro trimestre em relação aos três meses anteriores.

Entre os motivos disso estão o cenário externo, a redução de investimentos no país e o real valorizado, que prejudica as exportações.

O setor de edição e impressão foi um dos ramos industriais a sentir na pele essa queda: já sofreu uma redução de 6,7% no início deste quarto trimestre.

"Neste ano, além de sofrermos a concorrência das mídias eletrônicas, fomos afetados pela concorrência de produtos importados, como o das embalagens", explicou à BBC Brasil Fabio Arruda Mortara, presidente da Abigraf (entidade que representa a indústria de edição e impressão) e empresário do setor.

Mortara prevê que o setor crescerá cerca de 1% neste ano, depois de ter crescido entre 4,5% e 5% no ano passado.

Para 2012, sem apostar em um câmbio mais favorável para exportações, Mortara espera crescimento nos mercados de embalagens e de impressão de material promocional – este deverá ser favorecido pelas eleições municipais do ano que vem.

2012

Para Marcio Salvato, "o cenário para 2012 se deteriorou bastante (em relação ao que esperávamos no ano passado). Com a crise europeia, as expectativas serão reduzidas para baixo. Para fazer contenção fiscal, os governos estão gastando menos".

Uma possível desvalorização do real pode desafogar a indústria e mais competitividade aos produtos brasileiros, agrega o professor do Ibmec. "Mas, com o mercado externo desaquecido, isso adiantará pouco."

Para Alessandra Ribeiro, "se não houver nenhuma ruptura brusca no cenário internacional, devemos apresentar um desempenho melhor, puxado por altas do salário mínimo. Mas a inflação, que deve fechar este ano na casa dos 5%, continuará sendo uma preocupação".