Opinião: Protestos pós-eleição sinalizam nascimento da 'Primavera Russa'?

Protesto contra resultado da eleição russa (Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption Para jornalista russo, manifestações indicam 'volta à vida' da política do país

Manifestantes convocaram uma nova onda de protestos nesta quarta-feira na Rússia, em repúdio às eleições parlamentares realizadas no último domingo. Observadores do pleito alegam que houve manipulação dos resultados eleitorais, que teriam favorecido o partido do premiê Vladimir Putin, vencedor das eleições.

Nesta quarta, o ex-líder do período soviético Mikhail Gorbachev pediu que as eleições de domingo fossem anuladas e refeitas. "Os líderes do país devem admitir que houve inúmeras falsificações e fraudes, e que os resultados não refletem a vontade popular", acusou Gorbachev.

Em artigo para a BBC, Konstantin von Eggert,apresentador e comentarista da rádio privada Kommersant FM, de Moscou, comenta a dimensão dos protestos e a possibilidade de eles darem início a uma Primavera Russa. Leia abaixo:

Estaríamos testemunhando uma "Primavera Russa" neste inverno?

Esta é a questão que os meus colegas dos EUA e da Europa estão me perguntando repetidamente nos últimos dias.

Eu não tenho a certeza de que os acontecimentos na Rússia refletirão aqueles do mundo árabe, mas uma coisa é certa: o que nós vimos (nos protestos iniciados) em 4 de dezembro foi uma volta à vida da política russa, uma política que todos pensavam que estava em coma.

Pelo segundo dia consecutivo, em Moscou e em São Petersburgo, testemunhamos o tipo de protestos pró-democracia que essas cidades não viam desde o turbulento início dos anos 1990. E, embora o resultado esteja longe de ser claro, algumas poucas coisas estão começando a ficar nítidas.

Esta eleição se revelou um referendo de-facto para o partido Rússia Unida, do primeiro-ministro Vladimir Putin, e para a sua década no poder.

Mesmo que acreditemos que os resultados oficiais não deixem dúvidas - o que definitivamente não é o caso -, um sinal muito importante foi enviado à classe que governa o país.

A votação de dezembro pode ser vista como um tipo de "marco zero" para as eleições presidenciais da Rússia, marcadas para março de 2012.

Putin é considerado o grande favorito para ganhar um terceiro mandato no poder, mas a eleição parlamentar colocou isso em dúvida.

Se, em março, Putin entrar em algum tipo de "batalha fictícia" semelhante a aquelas da maioria das eleições anteriores, ele perderá ainda mais credibilidade.

Ele pode ter feito uma aposta, abrindo espaço para uma concorrência genuína e seguindo um tipo de estratégia "Putin 2.0", uma manobra que, segundo seus aliados, ocorrerá eventualmente. No entanto, se ele fizer isso, terá de optar por uma liberalização geral em vez de uma liberalização cosmética, e estar preparado para enfrentar uma barragem de críticas.

Conhecendo o líder russo, este é um cenário bastante improvável. Putin, ao que parece, terá de confrontar violentamente a dissidência, ou então enfrentar a insatisfação cada vez maior das massas e um desapontamento cada vez maior com sua capacidade de controlar a situação de dentro da classe governante.

Classe média nascente

Há também alguns outros novos acontecimentos. Esta foi a última eleição na qual a TV controlada pelo Estado cumpriu um papel decisivo. A penetração da internet na Rússia já cresceu enormemente, e, até 2016, ano de um novo processo eleitoral, entre 75% e 80% dos eleitores terão acesso à rede.

E, embora 80% ou 90% dos usuários naveguem na internet em busca de fofocas de celebridades, namoro online ou compras, os cidadãos com consciência política têm agora uma plataforma livre para entrar em debates e se organizar.

Desmascarar as fraudes eleitorais teria sido impossível sem smartphones, Facebook e Twitter.

O ativismo online tornou a autoorganização offline não só possível, mas efetiva.

É por isso que é possível que o governo tente apresentar propostas de lei restritivas para a internet, algo a ser observado em 2012.

Esta também foi a primeira eleição russa na qual a nascente classe média do país - feita de pessoas autossuficientes, que falam inglês, operam iPads e estão na casa dos 30 anos - realmente saiu para votar.

Esta é a geração que se beneficiou do boom do petróleo ocorrido durante a Presidência de Putin, entre 2000 e 2008.

Mas a crise econômica, a estagnação política e a corrupção fizeram com que elas se virassem contra o regime.

Essas pessoas são uma minoria, mas uma minoria com cada vez mais influência nas grandes cidades, que é onde a política real acontece na Rússia.

Essas pessoas são o futuro da Rússia, e o Kremlin as perdeu, irrevogavelmente.

Enquanto isso ainda possa não ser uma "Primavera Russa", a classe governante da Rússia foi engolfada por uma crise de legitimidade, e eu não consigo prever o fim disso para breve.

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