Ataques matam mais de 60 no Iraque e expõem risco de disputas sectárias

Bairro alvejado em Bagdá nesta quinta-feira (AP) Direito de imagem AP
Image caption Atentados desta quinta foram os mais violentos em meses no país

Uma onda de ataques aparentemente coordenados deixou ao menos 63 mortos e 185 feridos em Bagdá nesta quinta-feira, elevando os temores de uma escalada na violência sectária, em meio a uma crise política no Iraque e quatro dias depois da retirada militar americana do país.

Segundo o Ministério do Interior, 14 alvos foram atingidos em diferentes partes - xiitas e sunitas - da cidade, incluindo uma escola. Muitas das bombas foram detonadas na hora do rush, quando muitos iraquianos estavam indo ao trabalho.

Trata-se da pior série de ataques com bombas nos últimos meses no país, e nenhum grupo assumiu a autoria dos atentados pouco depois de sua realização.

Para analistas, porém, o nível de coordenação sugere uma capacidade de planejamento possuída apenas pela Al-Qaeda iraquiana, que abriga principalmente insurgentes sunitas.

A violência no Iraque vinha declinando, após um pico entre 2006 e 2007 durante a guerra combatida pelos EUA. Agora que as últimas tropas americanas deixaram o país, supostamente pondo fim à guerra, o medo é de que as forças de segurança iraquianas não sejam capazes de conter os conflitos sectários e de que a instabilidade política derive em uma guerra civil.

Disputas políticas

O governo de unidade iraquiano entrou em turbulência nesta semana após a emissão de uma ordem de prisão contra o vice-presidente sunita Tareq al-Hashimi, acusado de elos com extremistas.

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Image caption Atentados ocorrem em momento de fragilidade política e disputas sectárias

Na última quarta-feira, o premiê, Nuri al-Maliki, que é xiita, pediu que as autoridades curdas do norte do país entreguem Hashimi às autoridades.

Hashimi, a maior personalidade política sunita do país, nega as acusações e, junto com outros grupos sunitas, acusa Maliki de querer centralizar o poder. Esses grupos estão agora boicotando o Parlamento do país em retaliação a Maliki.

O premiê, por sua vez, ameaçou abandonar o governo de unidade, que foi formado há apenas um ano com o apoio dos EUA.

Ali Hatem Suleiman, líder de uma das maiores tribos sunitas do país, disse nesta quinta-feira ao programa World Update, da BBC, que Maliki "quer dividir o país e se tornar um ditador como Saddam Hussein (derrubado pelos EUA com a guerra iniciada em 2003)" e não descartou a possibilidade de uma guerra civil.

Segurança

Para Hiwa Osman, escritor e ex-assessor do presidente iraquiano Jalal Talabani, a atual crise "mostra que a liderança política é incapaz de resolver um problema pacificamente; e, sempre que se deteriora o clima político, se deteriora a segurança".

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Image caption Há temores de escalada da violência após a saída das tropas dos EUA do Iraque

O correspondente da BBC Jim Muir diz que a maioria xiita do país provavelmente concluirá que sunitas estão por trás dos ataques desta quinta-feira, o que provoca temores de que haja retaliação.

Segundo Muir, a percepção é de que há uma forte possibilidade de que insurgentes da minoria sunita estivessem esperando a deterioração do clima político para lançar ataques violentos.

Do lado dos EUA, o presidente Barack Obama admitiu que situação no Iraque é tensa, mas reiterou que as tropas americanas estão deixando para trás "um país estável, soberano e autossuficiente, com um governo representativo eleito por seu povo".

Na quarta-feira, o vice de Obama, Joe Biden, pediu diálogo entre as diferentes facções do país.