Ivan Lessa: O céu à noite

Antes de erguermos os olhos para o infinito do firmamento, fiquemos de pés plantados aqui nesta dura terra de gente implacável e irremovível como um capitão de cruzeiro italiano.

Pergunto se seriam necessários 212 twitters e 537 e-mails dirigidos a esta coluna para me informar que a palavra – substantivo e adjetivo – drongo existe e é gíria australiana que significa indivíduo tolo, idiota, bobalhão.

Estou algo familiarizado com a cultura antípoda, vi um dos filmes daquele cara do facão e do boné, o tal de Crocodile, e julguei apta a expressão para dizer, naquele breve momento que passou, o que sentia e como me sentia. Fui drongo e voltarei a sê-lo quando se me baixar a dronguice.

Esclarecido isso, faço como o resto da Grã-Bretanha e volto, nestas noites de inverno, meus olhos para o céu. Trata-se da mais recente moda. O céu. The sky, como dizem eles, com toda razão.

Como diremos nós quando a coisa chegar aí como uma dessas fashion weeks que proliferam como ratos – e vou logo me desculpando pela infeliz analogia.

Sucede que, graças a um programa de televisão da BBC, The Sky at Night, sobre a astronomia, suas belezas e mistérios, o breu que nos cobre, mesmo neste inverno, é examinado, sondado e posto para jambrar como um peru de Natal ou lança-perfume ilegal nesta véspera de carnaval.

Não é pelo fato de seu apresentador ser um rapaz de bela estampa e postura, articulado e culto, Brian Cox, embora quero crer que isso conte ponto. É preciso que haja beleza em quem nos apresenta ao belo. Regra da vida.

Fato é que a astronomia é a derradeira coqueluche nestas terras. Melhor que febre dengue ou Big Brother. Como disse o poeta, "Posso viver na sarjeta, mas só contemplo os astros".

Não sei onde morreu o poeta, nem seu nome, mas deve ter aproveitado a paisagem que curtiu em seu tempo. Hoje estaria imprensa afora dando entrevista e nos ensinando, em voz pausada e sotaque cultivado, sobre alfas, centauris e aquelas outras luzinhas que eu luto para achar mas não consigo.

O programa da BBC é uma tradição, como tudo mais aqui, mas pegou fogo para valer com o rapagão de que já falei, Brian Cox.

Exagerando um pouco, eu diria que não se pode ir à rua sem esbarrar em alguém de olhos postos nos céus, como ou sem telescópio, mandando àquela parte sinais luminosos (ou semáforos) e seus irmãos passantes.

É de casa, porém, que melhor se aprecia um astro. Brian Cox na TV, uma galáxia no quarto dos fundos.

O cosmos é o quente, no momento. Supera até mesmo as infinitas preparações para os Jogos Olímpicos e os programas de calouros.

Magia mesmo é quando, diante de nosso telescópio (eu chego lá) vê-se, pela primeira vez, um planeta dar um salto mortal e cair em pé, se é que estou com minhas analogias astronômicas em dia.

Os dados contam a história. Na Amazon, por exemplo, a venda de telescópios mostrou um aumento de 500%. É muito telescópio mesmo para tanto céu.

E esbarro no recado que queria dar: por que não irmos de telescópio e contemplarmos nossos céus, que tem mais estrelas (como nossas vidas mais amores), e até nas favelas legais ou não (Pinheirinho) as nossas companheiras pisam, distraídas, em astros? Não é nosso lábaro estreladíssimo? Então?

Deixemos de estrangeirismos fúteis. Todos aos telescópios. Ou, pelo que me lembro, basta erguer os olhos para a noite alta, céu risonho, o luar que é quase um sonho, para dar com belezas ímpares e mais saudáveis do que mulheres bundudas. Como disse o título do filme com Cornel Wilde sobre a vida de Chopin, "À Noite Sonhamos".

Deixemos, pois, de futilidades. Todos aos telescópios! O céu é nosso destino!