Lucas Mendes: Um sonho democrata

Dez dias antes das primárias da Carolina do Sul, a campanha de Newt Gingrich estava em coma.

Nas pesquisas, aparecia com 10 a 18 pontos atrás de Mitt Romney, depois de humilhante quarto e penúltimo lugar em New Hampshire.

A campanha desmoronava, sem organização, sem endossos e pouco dinheiro, mesmo com a entrada de 5 milhões, de um amigo dono de cassino em Nevada.

Na véspera do debate, sua segunda ex-mulher, Marienne, numa entrevista, revelou que Newt, com um affair de seis anos com a amante Callista, propôs a ela um casamento aberto. Ela disse que recusou.

A entrevista foi a manchete-bomba do dia, e naquela noite, no debate final dos candidatos da primária da Carolina do Sul, o âncora John King, da CNN, um dos melhores repórteres políticos e âncoras na praça, abriu com a pergunta sobre as revelações da mulher.

Nos filmes sobre animais da natureza já vimos a cara de um leão quando vê uma gazela petitosa e pateta a poucos metros. Gingrich partiu para cima do jornalista com todos os dentes e as quatro patas.

"Que impertinência, que absurdo, abrir um debate presidencial com uma pergunta deste tipo" e foi adiante. Destroçou o âncora gazela e a grande imprensa sob intenso aplauso da plateia.

John King se assustou, recuou e tentou contemporizar com o argumento de que a pergunta tinha procedência porque estava nos jornais, os editores isto e aquilo, inheco inheco inheco....

Gingrich reesculhambou, mastigou e cuspiu a ossada. Se houvesse um medidor de índice instantâneo de aprovação popular você poderia ver a agulha do Gingrich romper as barreiras dos 20, 30 e 40 por cento de aprovação.

Ganhou a primária da Carolina do Sul, por 42 a 28. Mesmo em território sulista superconservador, território dele, foi uma virada arrasadora.

Assombrou os republicanos moderados, aliviou e divertiu os democratas que esperam novas vitórias de Gingrich.

Foi um erro abrir o debate com a pergunta, mas a bagagem de infidelidade de Gingrich faz parte do jogo porque ele sempre foi um moralista.

Fez sua primeira campanha para a Câmara federal com o lema "Deixe Nossa Família Representar Sua Família".

O campeão dos valores da família foi o primeiro marido de Jacqueline, sua ex-professora de geometria no curso secundário.

Quando casaram, ela tinha 26 anos, ele 19. Tiveram duas filhas e depois de 18 anos ele propôs divórcio quando ela estava no hospital se recuperando da cirurgia de um câncer uterino.

E tinha um affair com Marienne, que seria sua segunda mulher. Teria dito a um assessor que a primeira "era muito velha e feia para ser primeira dama".

Com Marienne o casamento durou doze anos, mas depois do sexto começou um affair com Callista, sua terceira e atual mulher.

Em pleno adultério com Callista, ele liderava a Câmara e o movimento pelo impeachment de Bill Clinton pelas suas vulgares relações com Monica Lewinski na Casa Branca.

Com esta bagagem de defensor dos valores familiares e infidelidades conjugais, a combinação de audácia e hipocrisia da resposta confirmou seu formidável talento de debatedor.

Um debate Obama x Gingrich seria o melhor espetáculo desta campanha.

Gingrich fez doutorado em História da Europa Moderna e, entre ficção e história, já publicou 24 livros. Seu maior mérito na política foi liderar a revolução conservadora que tomou a Câmara dos democratas depois de quarenta anos, mas foi afastado pelos próprios líderes da casa por violações éticas.

Foi o primeiro presidente da Câmara censurado na história, mas além da corrupção, os republicanos não toleravam seu estilo imprevisível e ditatorial.

Não tem apoio de nenhum dos antigos assessores ou de republicanos influentes na Câmara.

Virou lobista disfarçado de consultor. Entre seus clientes estava a maior hipotecadora do país, uma das principais responsáveis pela bolha imobiliária.

Hoje ele posa de rebelde contra Washington, Obama e Mitt Romney, mas o comediante Jon Stewart acertou na mosca: "Quando Washington faz exame de próstata, faz cócegas em Gingrich".

Ele é o candidato dos sonhos dos democratas.