Sarkozy aumenta impostos em jogada de risco antes das eleições

Nicolas Sarkozy. AFP Direito de imagem AFP
Image caption Sarkozy estaria adotando uma estratégia "vai ou racha" na disputa com o socialista François Hollande

A menos de três meses das eleições presidenciais na França, o presidente Nicolas Sarkozy – apontado como derrotado em todas as pesquisas de opinião – adotou uma estratégia extremamente arriscada em sua futura campanha, anunciando neste domingo o polêmico aumento de um imposto equivalente ao ICMS brasileiro.

Sarkozy, segundo analistas, estaria tentando assumir o papel de "presidente coragem", de alguém que corre o risco de tomar decisões impopulares, mas necessárias para enfrentar a crise econômica, às vésperas do primeiro turno das eleições.

No último sábado, o conselho nacional do partido de Sarkozy, o UMP, teve acesso ao videoclipe em que o presidente afirma que "é a coragem que dá força para agir", frase que deverá ser seu slogan de campanha.

Para alguns, no entanto, Sarkozy, que ainda não declarou oficialmente sua candidatura, estaria tentando reverter o balanço negativo de seu mandato e sua baixíssima popularidade com ações "kamikazes".

Sarkozy teria adotado a política do "vai ou racha" na disputa com o socialista François Hollande, apontado como vencedor nas pesquisas.

"O tema que o presidente utiliza é a coragem, mas a coragem não quer dizer injustiça. Sarkozy faz os outros pagaram sua pseudocoragem", afirmou Pierre Moscovici, diretor de campanha de Hollande, ao comentar o aumento do imposto.

Impostos

Em uma entrevista transmitida neste domingo por oito canais de TV, Sarkozy anunciou, com ares de programa de campanha, medidas para aumentar a competitividade das empresas francesas e tentar reduzir o desemprego no país, que aumentou 5,6% em 2011, atingindo o nível mais alto desde 1999.

O polêmico aumento de 1,6 ponto percentual da chamada TVA (Taxa sobre Valor Agregado, que incide sobre produtos e serviços) – que passará a ser de 21,2% e irá vigorar a partir de outubro – é necessária, disse o presidente, para compensar financeiramente a exoneração, também anunciada neste domingo, de encargos patronais sobre algumas faixas salariais.

Sarkozy defende que a exoneração desses encargos patronais, estimada em 13 bilhões de euros, vai aumentar a competitividade das empresas francesas e evitar a transferência de fábricas para países com custos trabalhistas menores.

Devido ao aumento da TVA, serão os consumidores que irão arcar, na prática, com os recursos para financiar o seguro social hoje pagos pelos encargos patronais.

O aumento do imposto é impopular e seus rivais de campanha afirmam que ele diminuirá ainda mais o poder de compra da população no atual cenário de crise econômica e de explosão do desemprego.

Sarkozy diz acreditar, no entanto, que o aumento da TVA não implica alta dos preços ao consumidor “em razão da forte concorrência” que existe no mercado.

Jornada de trabalho

Extremamente crítico em relação à jornada de 35 horas semanais de trabalho na França, criada pelos socialistas, Sarkozy também anunciou que “a página das 35 horas vai ser virada”, com uma medida que permitirá às empresas flexibilizar o tempo de trabalho na França, em caso de necessidade.

Na prática, isso significaria o fim da jornada de 35 horas semanais na França.

Para defender suas novas medidas, o presidente francês citou inúmeras vezes a Alemanha, afirmando que esse país já adotou há anos o aumento da TVA e ações como a flexibilização da jornada de trabalho para aumentar a competitividade de sua indústria.

Os opositores do presidente questionam porque ele não adotou essas medidas antes e decidiu agir em relação ao problema do desemprego e da competitividade quase no final de seu mandato.

Candidatura

Sarkozy se recusou neste domingo a anunciar sua candidatura, mas é certo que ele disputará a eleição. "Tenho um encontro com os franceses e não vou fugir dele", disse o presidente.

Estima-se que ele irá anunciar sua candidatura somente no final de fevereiro ou início de março. O primeiro turno ocorre no dia 21 de abril.

Segundo a imprensa francesa, Sarkozy teria, em um encontro com jornalistas, reconhecido erros de sua gestão e evocado a possibilidade de não ser reeleito e se retirar definitivamente da política.

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