O que muda com a saída de mais um ministro?

Mario Negromonte, ex-ministro das Cidades (Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption Troca de ministros virou 'uma espécie de rotina', diz analista

Mário Negromonte (PP) entregou nesta quinta-feira sua carta de demissão do Ministério das Cidades, tornando-se o nono ministro a deixar o governo Dilma Rousseff - e o sétimo a sair em meio a suspeitas de envolvimento em casos de corrupção. Mas há mudanças profundas por trás do vai-e-vem de ministros? Poucas, segundo especialistas consultados pela BBC Brasil.

"Faz parte de uma lógica de que nada mude mesmo", opina o historiador Marco Antonio Villa, da UFSCar (Universidade de São Carlos). "Se repete um modus vivendi de defender-se um ministro até que isso fique insustentável e ele seja trocado por outro, numa espécie de rotina."

Além de Negromonte, deixaram o governo Dilma, pressionados por denúncias na imprensa, os ministros Carlos Lupi (Trabalho), Orlando Silva (Esportes), Pedro Novais (Turismo), Wagner Rossi (Agricultura), Alfredo Nascimento (Transportes) e Antonio Palocci (Casa Civil).

Para o cientista político Milton Lahuerta, da Unesp de Araraquara, as trocas ministeriais viraram algo visto como "natural", mas ao mesmo tempo são aproveitados por Dilma "como se fossem algo virtuoso".

"Passam a mensagem de que a presidente é forte, não vacila e reforça o caráter técnico de seu governo, mesmo que o substituto seja um político."

Base

Mas os substitutos pertencem aos mesmos partidos de seus antecessores – PMDB, PCdoB, PP e PR –, mantendo a fatia de poder dos partidos da base governista.

Isto evidenciaria a dependência do que Villa e Lahuerta chamam de "presidencialismo de coalizão", em que, para manter a base aliada e o poder de barganha no Congresso, o governo cede cargos ministeriais para os partidos.

"Com a dependência dessas coalizões, as mudanças são só na borda mesmo", diz Lahuerta. "Por isso a sensação de que as coisas não mudam muito."

Ao mesmo tempo, o professor da Unesp opina que as trocas fazem com que haja ao menos uma contenção do poder dos partidos aliados, fortalecendo o "núcleo duro" ao redor de Dilma, composto principalmente por Guido Mantega (Fazenda), Gleisi Hoffmann (Casa Civil), Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência da República), Miriam Belchior (Planejamento) e Ideli Salvatti (Relações Institucionais).

Olimpíada e Copa

Entre os ministérios trocados, ao menos três – Cidades, Turismo e Esportes – têm ligação direta com os preparativos para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016.

Um dos motivos atribuídos à queda de Negromonte é justamente a acusação, levantada pelo jornal O Estado de S. Paulo, de que ele teria dado aval para alterar um projeto da Copa, encarecendo-o. O ministro negou as acusações.

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Image caption Demissões tentam passar imagem de 'caráter técnico' do governo Dilma

O Ministério das Cidades diz que, com a entrada do novo ministro, Aguinaldo Ribeiro, em princípio, nada muda nos projetos relacionados aos eventos esportivos.

Felipe Saboya, coordenador do projeto Jogos Limpos (criado para promover o envolvimento cidadão nos eventos), diz que, apesar de considerar "precários" os preparativos para as competições, não vê grande impacto na troca no gabinete presidencial.

Ainda assim, reclama por "mudanças mais estruturais", como aprovação de projetos de lei de combate à corrupção e o fortalecimento de órgãos de controle.

Imagem lá fora

No exterior, onde o Brasil ganha mais projeção com os preparativos para os eventos, o troca-troca ministerial tampouco deve ter muito impacto – pelo menos é o que opina o consultor de políticas públicas Simon Anholt, que costuma assessorar países em suas relações públicas.

"O público geral externo não está interessado nesse nível de detalhe nem vai lembrar. O que vai impactar 99% (dos observadores internacionais) são as imagens de pobreza do Brasil que serão mostradas durante os Jogos", diz.

"Para 1% que tem laços comerciais com o Brasil, (as denúncias contra ministros) podem causar preocupação. No começo, podem achar bom o fato de tirar ministros criticados. Depois de um tempo, vão começar a achar que há algo errado."

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