Clima em presídio de Honduras é de desconfiança e resignação

Fachada da penitenciária de Comayagua Direito de imagem Reuters
Image caption Fachada do presídio incendiado contém dizeres: 'Faça-se a justiça, ainda que o mundo padeça'

Acima da porta da Penitenciária Nacional de Comayagua, em Honduras, estão os dizeres: "Faça-se a Justiça, ainda que o mundo pereça". A frase ecoa com força entre os familiares dos mais de 350 detentos mortos em um incêndio no presídio, na última terça-feira.

Trata-se do pior desastre do gênero em mais de um século e do maior incêndio em uma prisão latino-americana. O episódio foi um choque para Honduras, país onde motins e enfrentamentos são rotineiros.

Sendo assim, a geralmente aprazível cidade de Comayagua - que fica no caminho entre a convulsionada capital hondurenha, Tegucigalpa, e San Pedro Sula, uma das cidades com os maiores índices de homicídio do mundo - tem agora o odor dos corpos carbonizados.

A prisão, um edifício de paredes amarelas e brancas dentro das quais os detentos costumavam usar celulares à vontade e onde as gangues ("maras") impõem sua própria lei, virou um forno.

Passadas 24 horas desde o incêndio de terça, cujas causas ainda não estão esclarecidas, seguem saindo cadáveres do local, transportados por soldados hondurenhos e norte-americanos ao IML local.

Também circulam por ali peritos forenses e membros da Cruz Vermelha, além de bombeiros que não têm mais fogo a apagar, vendedores de comida para os militares, eletricistas que revisam a fiação do edifício e policiais que guardam a entrada do local onde, exceto os parentes dos detentos, muitos podem entrar sem despertar grandes suspeitas.

Superlotação

Cerca de 400 sobreviventes do incêndio continuam dentro do que sobrou do edifício, em tendas de campanha, dormindo a apenas alguns metros dos corpos de seus companheiros mortos.

O ministro da Segurança de Honduras, Pompello Bonilla, reconheceu, em entrevista à BBC Mundo, que por enquanto há poucas alternativas para realojá-los; o sistema penitenciário do país centro-americano está colapsado.

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Image caption Mais de 350 detentos foram carbonizados em incêndio na última terça, e corpos estão sendo retirados

"Somos um país pobre. E nos últimos anos têm aumentado o crime organizado e o narcotráfico. Isso impediu que déssemos uma resposta cabal ao tema" da superlotação dos presídios, disse Bonilla.

No presídio de Comayagua, que tem capacidade para cerca de 400 pessoas, havia 800 no momento do incêndio.

'Como porquinhos'

"Todos dormem como porquinhos, sem organização, amontoados. Dizia ao meu filho, brincando, que um dia ele tocaria o teto e poderia escapar pelo telhado, e foi isso que ele teve que fazer na última terça-feira", declarou a mãe de um dos detentos sobreviventes.

Como outros parentes de presos, ela estava diante da porta do presídio, onde reina um clima de desconfiança e resignação.

"Onde estão as chaves das celas que não abriram?", grita desesperada uma mulher diante de uma fileira de policiais.

O incêndio no presídio evidenciou as carências em protocolos de emergência, e alguns presos disseram que ninguém destrancou suas celas quando as chamas chegaram, que as saídas estavam bloqueadas e que, para escapar, tiveram que derrubar paredes.

Já em 2003 e 2004, houve registros de incêndios fatais nas cidades de Ceiba e San Pedro Sula. Mas, como ocorre também em outros países da região, o sistema penitenciário hondurenho ficou à mercê de gangues criminosas que operam por trás das grades.

O governo do presidente Porfirio Lobo prometeu uma investigação para apurar as responsabilidades pela tragédia de terça e removeu os funcionários responsáveis pela administração carcerária.

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Image caption Parentes de detentos estão fazendo vigília diante de presídio, aguardando informações

Agora, o país debate uma reforma drástica no setor, incluindo a possibilidade de privatizar os presídios ou oferecer suas concessões à iniciativa privada, disse à BBC Mundo o ministro de Obras Públicas, Miguel Rodrigo Pastor.

Enquanto isso, diante do presídio, pessoas continuavam se aglomerando em busca de informações ou lançando gritos contra as autoridades; muitas pessoas choram ainda sem saber se seus parentes estão entre os sobreviventes.

Outros como Sulla Padilla, com uma vela em mãos, estão em luto. Ela perdeu seus dois irmãos - um passou quatro anos no presídio; outro estava ali havia sete meses.

"É ilógico que eles estivessem nessa situação. São seres humanos, ainda que tenham cometido seus erros. Têm direito a viver", disse Padilla.

Ao ler a frase que paira sobre a porta do presídio - "Faça-se a Justiça, ainda que o mundo pereça" -, ela se queixa. "Sabemos que não vai acontecer nada", afirma.