Após votação na ONU, bombardeios se intensificam na Síria

BBC
Image caption Para ativistas, ataque foi o mais forte desde que governo lançou ataques contra oposição

Tropas sírias retomaram nesta sexta-feira uma pesada ofensiva na cidade de Homs, segundo ativistas de oposição, um dia depois que a Assembleia Geral da ONU pediu pelo fim da violência no país.

Um grupo de ativistas disse que o bombardeio foi o mais forte desde que as forças do governo do presidente Bashar Al-Assad iniciaram ataques contra posições oposicionistas, 13 dias atrás.

Enquanto isso, um alto representante chinês enviado a Damasco deve se encontrar com Assad. A China e Rússia votaram contra uma resolução da ONU que pedia a Assad que entregasse o poder a seu vice.

Os dois países também vetaram uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

'Violência extrema'

Áreas de Homs estão sendo castigadas com morteiros e foguetes disparados pelas tropas do governo sírio por quase duas semanas, tentando desalojar centenas de rebeldes do Exército Livre da Síria, formado por desertores das forças armadas.

Nesta sexta-feira, tiros de artilharia pesada atingiram os distritos de Baba Amr, Inshaat, Bayada e Khaldiya, dizem ativistas de oposição e de defesa dos direitos humanos.

"O bombardeio é contínuo. Eles estão usando foguetes e morteiros, que estão caindo sobre as casas das pessoas", disse à BBC o morador de Homs Abu Abdah.

"Os danos são enormes e a cidade foi isolada", afirma. "Nós não temos apoio. Temos uma falta de suprimentos médicos e comida. As forças de Assad estão impedindo as pessoas de deixar a cidade", disse o morador.

"É inacreditável, a violência é intensa de uma maneira como nunca vimos, com uma média de quatro foguetes por minuto", disse à agência AFP Hadi Abdullah, da Comissão Geral da Revolução Síria, de oposição.

"Há milhares de pessoas isoladas em Homs. Há bairros dos quais não sabemos nada a respeito. Eu mesmo não sei se meus pais estão bem. Não tenho notícias deles há 14 dias", afirmou.

Forças do governo nos arredores de Homs ainda não conseguiram obter um avanço por terra suficiente para arrasar toda a resistência, como pretendiam fazer.

O Observatório Sírio para os Direitos Humanos, com sede na Grã-Bretanha, afirma que nove corpos não identificados foram encontrados em Homs na manhã desta sexta-feira.

Mais tarde, forças de segurança em diversas localidades supostamente atacaram manifestantes que protestavam nas ruas depois das orações de sexta-feira, inclusive nos subúrbios de Damasco. O Observatório afirma que uma pessoa morreu em um protesto no distrito de Mezzeh, na capital.

Os Comitês de Coordenação Local, um grupo de ativistas que organiza e documenta protestos, relatou que 45 pessoas foram mortas pelas forças de segurança em toda a Síria, incluindo sete em Homs e 12 desertores do Exército que teriam sido executados na Província de Deraa, no sul do país.

Resolução 'desequilibrada'

O correspondente da BBC Jim Muir, que está no vizinho Líbano, afirma que a aprovação da resolução na Assembleia Geral da ONU claramente não afeta os eventos na Síria, mas deu a todas as partes a chance de expor seus pontos de vista.

A moção recebeu o voto de 137 países-membros, inclusive o Brasil, que pediram às autoridades sírias que "parem com toda a violência ou represálias imediatamente, em concordância com a iniciativa da Liga de Estados Árabes".

O bloco regional pediu a Assad que entregue o poder a seu vice, que formaria um governo de união nacional em um período de dois meses.

"A Assembleia Geral da ONU enviou uma mensagem clara ao povo da Síria: o mundo está com vocês", disse a representante permanente dos Estados Unidos na ONU, Susan Rice.

A Rússia e a China estão entre os 12 países que votaram contra a resolução, que não pode ser imposta à Síria. Outras 17 nações se abstiveram.

Antes da votação, o vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Gennady Gatilov, disse que a resolução era "desequilibrada".

O representante permanente da Síria na ONU, Bashar Jaafari, argumentou que a resolução é uma mensagem de apoio a "extremistas e terroristas" que, segundo ele, estão sendo combatidos pelas autoridades do país, e alertou que a aprovação somente levará a mais violência.

'Crimes contra a humanidade'

No entanto, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, acusou as autoridades sírias de cometer "quase com certeza" crimes contra a humanidade.

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Image caption Para Ban Ki-moon, governo sírio pratica "quase que certamente" crimes contra humanidade

Nesta sexta e sábado, o vice-ministro de Relações Exteriores da China, Zhai Jun, visita Damasco e deve se encontrar com Assad, após ter se encontrado com representantes da oposição.

Antes de deixar Pequim, ele condenou a violência contra civis e pediu que o governo sírio respeite o desejo "legítimo" do povo sírio por reformas.

No entanto, ele acrescentou que a China não aprova o uso da força para intervir na Síria, ou a imposição de uma troca de regime.

O correspondente da BBC diz que as chances de uma mediação bem-sucedida parecem muito escassas neste momento.

Potências ocidentais e árabes vão se encontrar em Túnis (Tunísia) dentro de uma semana, para aumentar seu apoio à oposição síria. Dois dias depois, o governo deve realizar um referendo para uma nova Constituição.

Nesta sexta, a França e o Reino Unido pediram que a oposição síria se una, dizendo que ela precisa de mais apoio internacional para resistir à repressão.

"Nós não podemos levar a cabo uma revolução síria (...) se a revolução síria não fizer um esforço para se manifestar em conjunto e se organizar, para que nós possamos ajudá-los melhor", disse o presidente francês, Nicolas Sarkozy, depois de conversas em Paris com o primeiro-ministro britânico, David Cameron.

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