Duas visões: Quais são os rumos do carnaval carioca?

Pedro Luís e Moacyr Luz (fotos: Jorge Bispo e Divulgação)
Image caption Músicos Pedro Luís e Moacyr Luz falam à BBC Brasil (fotos: Jorge Bispo e Divulgação)

No carnaval carioca, os blocos que saem pelas ruas do Rio deram prova de que ainda não pararam de crescer, atraindo quatro milhões de cariocas e turistas durante os quatro dias de sol, de acordo com a Riotur.

Na Quarta-Feira de Cinzas, a BBC Brasil conversou com dois importantes músicos da cidade para falar sobre os rumos do carnaval carioca e refletir sobre o crescimento e as mudanças no carnaval de rua, hoje é o maior do país.

Para o sambista e compositor Moacyr Luz, o Rio está "bem inflado de blocos de rua", mas este crescimento deve se equilibrar naturalmente. Para ele, o carnaval do Rio virou moda, mas a festa continua valendo a pena mesmo cheia. "Ninguém gosta de praia deserta", afirma.

Um dos fundadores do Monobloco, bloco de maior público da geração mais recente, o músico e compositor Pedro Luís diz que o crescimento do carnaval de rua na cidade é evidente e que todos os grupos "têm respirado essa revitalização".

Ele considera que o diálogo da prefeitura do Rio com os blocos - procurando reacomodar aqueles de maior público em espaços mais amplos - tem ajudado a cidade a comportar a festa. Mas lembra que o Rio nunca será "destino único" de foliões, havendo outras cidades de forte tradição na festa Brasil afora.

De acordo com a Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro (Riotur), 425 blocos estavam programados para sair antes, depois e nos dias de carnaval, apenas um a mais do que em 2011. Nas ruas, entretanto, a impressão é de um público maior, com muitos blocos chegando às centenas de milhares de foliões, como o Simpatia É Quase Amor, com 150 mil foliões, o Afrorreggae, com 400 mil, e o recordista Cordão do Bola Preta, que atraiu estimadas 2,2 milhões de pessoas.

Apesar de o carnaval já ter acabado oficialmente, há desfiles no Rio até domingo, quando o Monobloco, que no ano passado atraiu meio milhão de pessoas, sai pela Avenida Rio Branco - que na segunda-feira volta a ser o centro empresarial do Rio.

Moacyr Luz

BBC Brasil: Quais são os rumos do carnaval carioca?

Moacyr Luz: O Rio está bem inflado de blocos de rua. Acho que há um certo surto, uma certa euforia onde as pessoas precisam ir a todos os blocos. Passei por perto do Sargento Pimenta (bloco carioca que toca músicas dos Beatles) e parecia até que as pessoas estavam indo atrás de um guru. Mas não dava para enxergar nem o sargento, nem o pimenta.

Eu até fiz uma brincadeira no Twitter. Eu já fundei bloco, já participei de muitas coisas, e acho fundamental essa história dos blocos de rua, até porque vim de uma época em que se fugia do carnaval do Rio. Ia para a Região dos Lagos, passar o carnaval fora, até perceber que isso era uma traição com a cidade.

Mas hoje não há um bloco que não esteja absolutamente lotado, com pessoas ocupando demais o espaço. Não sei qual solução a gente vai ter. Mas que influi (no carnaval carioca), influi demais. Não sei se é uma questão de vaidade ter carros de som de uma magnitude baiana, como se estivéssemos em um trio elétrico, e aí quanto melhor o som, mais gente tem, e aí você entra numa espiral.

BBC Brasil: Você acha que há um limite para esse crescimento?

Moacyr Luz: Acho que o equilíbrio vai vir naturalmente, não sei bem como, talvez as pessoas comecem a enjoar um pouco. Tem que diminuir um pouco os pitboys. Os caras saem de bermuda e sem camisa e acham que isso é carnaval.

Uma hora vai se chegar a um equilíbrio, porque começa a ficar incômodo, né? Não é possível que o cara vai querer sofrer. Você vai pegar o metrô e está impossível de andar.

BBC Brasil: Por que você acha que aumentou tanto?

Moacyr Luz: É moda, né, bicho. O Rio é o tambor do país, é o que ecoa. A gente vai inventando coisas ao longo do tempo.

E não adianta, ninguém gosta de praia deserta. Você não tem um sorvete, não passa uma empada, não tem uma mulher bonita para você ver, ou um cara bonito para a mulher ver.

O sujeito vai dizer: "adoro samba, mas tá muito cheio"?. De samba vazio, ninguém gosta. Quando a coisa começa a ficar bacana, vai lotar, não tem jeito. Ainda mais quando é no Rio de Janeiro.

BBC Brasil: Você ainda frequenta o carnaval de rua?

Moacyr Luz: Eu sou um cara que vai para a Avenida Rio Branco ver o Cacique de Ramos passar (tradicional bloco carioca que desfila no centro). Eu gosto do carnaval de rua. Fui a muito lugar neste ano. Fui ao Sassaricando, Bagunça Meu Coreto, Gigantes da Lira, cantei um samba no Simpatia, passei por fora do Sargento (todos blocos de rua do Rio), desfilei na (escola de samba) Império Serrano...

BBC Brasil: E mesmo com a cidade cheia, continua valendo a pena.

Moacyr Luz: Lógico que vale. A cidade está cada dia mais bonita. A gente está começando a entender a importância do turismo, de receber bem. E isso para mim não tem preço. Às vezes, graças ao trabalho, tenho a oportunidade de viajar a outros lugares, como Itália e Espanha, e vejo como as pessoas valorizam o turismo.

Aqui a gente tem tudo para ter o mesmo movimento, tem muita coisa a favor. As pessoas querem ser cariocas! É interessante isso. Querem ter o mesmo sotaque, acham que a gente é malandro, mas a gente trabalha para caramba.

BBC Brasil: E os desfiles das escolas de samba?

Moacyr Luz: Estive neste ano no camarote da Brahma e gostei dos desfiles. Achei muito bonitas as alterações no Sambódromo (que passou por obras de ampliação antes do carnaval). A pista ficou mais aberta para o público e isso permitiu ver ver melhor os desfiles.

Acho que hoje ficou difícil ter uma boa apuração (dos resultados das escolas de samba). Os recursos são muito iguais a nível de dinheiro e de tecnologia. E os recursos tecnológicos estão muito parecidos, as escolas estão com as mesmas paradinhas. É como se fosse uma prova de Fórmula 1, você acaba vencendo por um milésimo.

Nos desfiles de escola de samba, acho que as melhores coisas continuam sendo a concentração (onde as alas e os carros aguardam a vez de entrar na avenida). Ali as pessoas se reencontram, ficam nas barraquinhas tomando um caldinho de mocotó, é como se fosse uma quermesse. Uma festa religiosa, mas de carnaval. Está todo mundo ali em uma intensa comunhão, torcendo para a sua escola.

Pedro Luís

BBC Brasil: Quais são os rumos do carnaval carioca?

Pedro Luís: Eu ainda não tenho um balanço final deste carnaval porque para o Monobloco ele só termina no domingo pós-carnavalesco (quando o bloco desfila no centro do Rio). Mas acho que houve um crescimento evidente nos blocos todos, tanto dos contemporâneos do Monobloco quanto os veteranos do carnaval e os mais novos. Todos têm respirado essa revitalização do carnaval.

É bonito ver o carioca de novo com a autoestima lá em cima, gostando de ir para rua, com um monte de gente ficando na cidade e outras vindo para ver o carnaval do Rio de Janeiro. O movimento com certeza aumentou muito, e tem muita gente curiosa para ver esse carnaval de rua que vem crescendo vertiginosamente na última decada. Você vê que realmente virou uma opção de carnaval no Brasil, algo que não acontecia alguns anos atrás.

BBC Brasil: Você acha que existe um limite até onde o carnaval de rua pode crescer? Hoje algumas pessoas já voltaram a sair da cidade porque dizem que o carnaval ficou muito cheio.

Pedro Luís: As pessoas não saem (da cidade) por que os blocos ficaram grandes, saem porque não gostam, e sempre há pessoas que não gostam. Sobre a questão de quanto comporta, acho que isso não é muito mensurável. Mas é bacana a conversa que começou a surgir da prefeitura com os blocos sobre como fazer a cidade comportar isso (o maior movimento) com o menor impacto.

O Monobloco foi um dos primeiros a sofrer essa reflexão, porque cresceu muito rápido e muito cedo, e ano a ano foi mudando de lugar. Até que propus para o governador Sérgio Cabral a liberação para a gente se mudar para a (Avenida) Rio Branco, que é uma área não-residencial e um dos berços do carnaval do Rio. A gente já está no quarto desfile lá, e superfeliz por esse crescimento ter nos levado para um dos berços do carnaval.

BBC Brasil: A atuação da prefeitura na definição dos horários e dos locais dos blocos ajuda a distribuir o crescimento?

Pedro Luís: A participação da prefeitura nessa reacomodação ajuda, mas acho que não é só isso. Outros carnavais clássicos do Recife, da Bahia, de Diamantina, do interior de São Paulo são muito fortes e também vão atraindo foliões e turistas, o que ajuda a contrabalançar também. O Rio nunca vai ser o destino único de todo mundo que quer brincar carnaval. Você tem outras cidades muito fortes.

Acho que o Rio ainda comporta um contingente grande de foliões pela sua grandeza e pela generosidade de lugares onde acontece. Essa distribuição beneficia e cria roteiros de carnaval bem interessantes. O carnaval está se alastrando pelas ruas da zona norte e da zona oeste, e também pelos salões. Os bailes carnavalescos estão sendo retomados com mais força. Isso tudo ajuda a dividir as atenções de quem procura entretenimento no carnaval.

BBC Brasil: Quando você diria que o esse crescimento no carnaval de rua carioca começou?

Pedro Luís: Alguns blocos são anteriores anteriores a essa retomada. Mas diria que no fim dos anos 1990, e que a curva começa a se acentuar ali pelo ano de 2002. Acho que o Monobloco tem uma responsabilidade nisso. Um dos ingredientes que fazem isso acontecer estão ligados a nós, que é a habilitação de leigos a se tornarem músicos durante o carnaval.

A origem do Monobloco é uma oficina que já tem 16 anos, que tem no samba a sua matriz principal, mas é famosa também por ensinar as pessoas a adaptar outros ritmos a esse instrumental que é usado pelas escolas de samba. Outros blocos acabaram se inspirando neste formato, buscando suas identidades musicais e sonoras e usando esse expediente de se tornar músicos durante o carnaval.

BBC Brasil: Hoje o carnaval do Rio tem blocos que tocam Roberto Carlos, Beatles, Raul Seixas ou Wando. Os puristas reclamam que falta samba nesses blocos. Qual é a sua opinião?

Pedro Luís: Cada um escolhe o que faz com a música e com os seus instrumentos. É fundamental que o samba se mantenha, mas acho que preconceito é ruim de qualquer lado. É ruim ter preconceito com o samba, que já foi discriminado por muito tempo, e mas o preconceito do mundo do samba com relação a outras coisas eu também acho ruim.

O Monobloco se orgulha muito de ter feito essa interface entre as velhas guardas e a juventude, mostrando para a juventude que o samba é maravilhoso, e também para as velhas guardas que a juventude é maravilhosa.

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