'Não há mais trabalho, minha renda caiu à metade', diz vendedora brasileira na Grécia

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Image caption Fátima Reis pensa em usar passagens de visita ao Brasil para voltar de vez para o país

A população grega tem sido obrigada a apertar drasticamente o cinto por conta da grave crise econômica que afeta o país.

Para poder receber o pacote de ajuda de 130 bilhões de euros concedido pela União Europeia, o governo grego teve que impôr uma série de medidas de austeridade, como aumento de impostos e tarifas, cortes de pensão, salários e empregos.

Relatos de brasileiros residentes no país dão a dimensão do aprofundamento da situação na Grécia, símbolo maior da mais grave crise da zona do euro. Por outro lado, mostram como a vivência na antes turbulenta economia brasileira ajuda a dar fôlego para superar o mau momento.

Divorciado e com os filhos crescidos, o arquiteto Dionísio Agourakis decidiu, há cinco anos, fazer uso do passaporte europeu a que tinha direito como filho de grego. Arrumou as malas, partiu para Atenas e montou um escritório.

No início, atendeu a grandes clientes, mas viu a crise gradualmente paralisar projetos. A procura caiu cerca de 50%, diz. Mas Dionísio aproveitou as memórias das muitas crises brasileiras por que passou para seguir adiante.

"Mudança ou perda do valor da moeda, além de pressão do FMI, faziam parte da realidade do brasileiro. É preciso se adaptar. Apertou, ficou mais difícil, mas vive-se. Aí entra o jeitinho para achar uma saída", diz.

"É preciso identificar a oportunidade. Como ninguém está comprando apartamentos novos, há muitas reformas", complementa, antes de afirmar que a vida na Grécia ainda é melhor do que a no Brasil.

No setor público, cortes; no privado, receio

Mas nem sempre o jeitinho supera o enorme impacto das políticas de austeridade.

Há 30 anos na Grécia, a motorista Katia Orlik teve que abandonar o trabalho como taxista e, agora, conta com serviços esporádicos e a renda do marido para se manter.

"Não tinha passageiro e o combustível aumentou muito. A gasolina aqui é a segunda mais cara da Europa. E tinha que pagar 35 euros de diária do carro, mais 15 euros de combustível e outros 13 euros de seguro social. Então, no fim do dia, acabava fazendo 10 euros", explica.

Como o marido de Kátia é aposentado, a renda da família acabou sofrendo perdas ainda maiores.

"Ele ganhava 1.800 euros líquidos. Agora, são 1.500. E a gente já espera novas reduções. Esse valor, para duas pessoas, já seria apertado. Mas tenho três filhos. Minha mais nova está fazendo vestibular e pagamos só de cursinho 400 euros. Sem falar que, em quatro meses, foram 600 euros de impostos embutidos na conta de luz, cujas tarifas também aumentam a cada três meses", enumera ela, que insiste em ficar na Grécia. "Minhas raízes estão aqui".

No setor privado a situação é um pouco melhor do que a do serviço público e a dos pensionistas. Mas há apreensão. Layra Souza Ferreira, secretária de uma empresa de navegação e moradora de Atenas há 26 anos diz que "houve apenas um aumento na seguridade social, que reduziu os salários em 2%. E, em janeiro, passou a vigorar sobre o que recebemos um imposto de solidariedade, de outros 2%."

"Fico muito preocupada, porque já se fala em cortar o décimo-terceiro e pagar um bônus de 200 euros a todo mundo. Uma hora a bola vai chegar até nós", prevê.

'Não vou cortar salários de meus empregados'

Dono de uma loja de produtos brasileiros, Jean Anastasiou também relata enorme queda nas vendas em seu estabelecimento - cerca de 40%.

"Mas ainda não estou em uma situação grave. Nem vou cortar salários de meus cinco empregados. Acho que isso afetaria a vida deles e não resolveria meu problema", avalia o empresário, há 15 anos no país.

Ele se queixa da nova lei que permite a empregadores reduzir salários na iniciativa privada ao valor-base da categoria caso o trabalhador tenha mais de 30 anos de profissão. "Vai esfriar ainda mais a economia".

Entre os autônomos, porém, a situação é difícil. Vendedora de esmaltes, Fátima Reis pensa em aproveitar as passagens para visitar a mãe no Brasil e ficar de vez. "O problema é que as lojas estão vazias. Não há mais trabalho. Minha renda caiu à metade. Se é para passar necessidade, melhor que seja perto da família", argumenta.

Fátima acredita que muitos brasileiros, porém, sequer podem regressar, por não terem o suficiente para comprar a passagem. "Outros, que deixaram o Brasil com a promessa de fazer dinheiro, agora evitam voltar e enfrentar a família com uma mão na frente e outra atrás".

Há cerca de um mês, o governo federal abriu eleições para o Conselho de Cidadãos Brasileiros na Grécia.

Com os nove representantes eleitos, a entidade promete recolher informações e tentar estabelecer contato com imigrantes ilegais que vivem no país.

Estes brasileiros escapam às estatísticas oficiais e não dispõem de ajuda governamental em momentos de crise.