'Não conseguia olhar para ele e me sentia culpada por ter falhado como mãe'

Crédito: Daniel Gimenes Direito de imagem BBC World Service
Image caption Stéfani e o filho André: superação com apoio familiar

Numa tarde fria, no final do ano de 2010, Stéfani Abe, 34, chegava do trabalho na cidade de Ikeda, na província japonesa de Gifu, quando recebeu uma ligação. Era da polícia. O filho, o também brasileiro, André Ryuji Abe Lage, hoje com 14 anos, estava detido por vandalismo.

"Foi um choque tão grande, pois eu confiava nele", conta a mãe. Cerca de um mês antes, ela tinha liberado o garoto para sair com amigos após a aula. "E não percebi nada de errado no comportamento dele", lembra.

André ajudava a mãe a cuidar dos irmãos menores e nos afazeres de casa. "Foi muito doloroso, pois depois do que aconteceu não conseguia mais olhar para ele e me sentia culpada por ter falhado como mãe", conta emocionada.

Alguns dias antes de ser preso, a mãe chegou a perceber as unhas do garoto sujas de tinta. "Perguntei o que era e ele disse que tinha ajudado a pintar a bicicleta de um amigo", reconta.

Stéfani chegou a alertar o filho para não pichar muros, pois ele poderia ser preso. "Hoje sei que mentir não vale a pena", diz o jovem, que também fumava cigarro escondido dos pais.

"O momento mais difícil foi ver minha mãe chorando", conta ele, que diz ter aprendido a lição e, com apoio da família, canalizou o dom para pintura em um curso de aerografia.

A brasileira, depois de muita conversa, conseguiu fazer o filho entender que somente a família poderia estar ao lado dele nos momentos mais difíceis. "Por seis meses deixei de trabalhar para dar atenção a ele", conta.

"No Japão, os pais têm pouco tempo para se dedicar aos filhos e, infelizmente, vejo que muitos nem conversam direito em casa", lamenta ela, que já viu filhos de conhecidos serem presos por crimes mais graves.

"Acontece, mas devemos estar ao lado deles para mostrar que o caminho que escolheram estava errado", ensina.

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Image caption O jovem André passou a canalizar seu talento num curso de aerografia

"Às vezes a gente age por impulso, sem medo de nos machucar. Mas temos de pensar também na nossa família, que vai sofrer junto e ficar muito triste", reforça André.

Espaço para o jovem

Na comunidade brasileira no Japão, outras histórias tiveram final parecido com a de André, de jovens que conseguiram mudar o rumo de suas vidas.

Muitos destes adolescentes contaram com o apoio não só dos pais, mas também de organizações sem fins lucrativos que se espalharam por todo o Japão, para tentar conter a crescente onda de criminalidade entre jovens brasileiros, principalmente no começo dos anos 2000.

Em Gunma, província que concentra grande quantidade de brasileiros, duas ONGs criaram juntas o Festival da Juventude, um espaço para os jovens mostrarem seus talentos artísticos e musicais.

"Criamos o evento em 2001 e, já no ano seguinte, segundo a polícia local, não houve mais registro de crimes envolvendo brasileiros", comemora a religiosa Yoshico Mori.

O festival, que passou a ser anual, reunia escolas brasileiras da região e grupos independentes de dança, teatro e música. O último foi realizado em 2010. "Cumprimos nossa missão. Agora vamos partir para outras ações" disse Yoshico.

Outra atividade que ganhou muita repercussão na comunidade brasileira do Japão foi o concurso Dream Factory Audition, realizada em 2003 e apoiada pela Sony Music Entertainment, que pretendia revelar talentos na música.

Roberto Ishikawa, 39, líder do grupo de hip hop Tensais MC’s que reúne japoneses e brasileiros, foi um dos finalistas e, desde então, não parou de incentivar o estudo e a busca por um objetivo de vida entre os jovens.

"A iniciativa serviu como chance para quem quisesse debutar no mercado musical japonês e, no fundo, alimentou a esperança de muitos jovens que estavam nas fábricas, nas escolas e até os que não faziam nada", diz.

Para Roberto, apesar dos números de criminalidade terem diminuído, falta mais apoio dos governos e da iniciativa privada para que projetos de prevenção continuem em atividade na comunidade.

"Infelizmente ainda há muitos jovens desamparados, sem um sonho, um objetivo, ou mesmo afeto e acesso à educação", diz o brasileiro, que trabalhou numa ONG responsável por achar as crianças fora da escola e encaminhá-las para as salas de aula.

"Muitas vezes tinha de convencer os pais da criança ou até mesmo a própria criança sobre a importância do estudo em seu futuro. Usava para isso minha própria história", conta Roberto.

O brasileiro estudou até a quinta série do ensino fundamental, não tem um trabalho fixo e, desde que veio ao Japão, nunca pisou numa escola japonesa.

"Por ser estrangeiro, minhas chances de conseguir um bom emprego não chegam a 30%. Os que não falam o japonês estão em uma situação pior", lamenta.