Sírios fogem em massa para o Líbano em meio a denúncias de atrocidades em Homs

Refugiados sírios fogem de Homs (Foto: BBC) Direito de imagem BBC World Service
Image caption ONU estima que até 2 mil pessoas tenham fugido da Síria nos últimos dois dias

Milhares de sírios têm cruzado a fronteira com o Líbano, segundo a ONU, em meio a relatos de que as forças de segurança do regime de Bashar al-Assad estariam cometendo atrocidades na conflagrada cidade de Homs.

A agência de refugiados das Nações Unidas estima que até 2 mil pessoas tenham fugido da Síria rumo ao país vizinho nos dois últimos dias.

Uma moradora do distrito de Baba Amr, um dos focos de conflito em Homs, disse à BBC que soldados haviam degolado seu filho de 12 anos.

Ao mesmo tempo, a chefe de questões humanitárias da ONU, Valerie Amos, disse ter obtido permissão do governo sírio para visitar o país, onde deve chegar nesta quarta-feira. Ela também fez um apelo para que a Síria permita acesso ilimitado da ajuda humanitária ao país.

O ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, também deve chegar à Síria neste final de semana, no papel de enviado especial das Nações Unidas e da Liga Árabe. Nesta quarta, ele se encontrará com autoridades da Liga no Cairo (Egito).

'Ataques de tanques'

A agência de refugiados da ONU (UNHCR, na sigla em inglês) disse nesta segunda-feira que muitos dos refugiados sírios - incluindo mulheres e crianças - traziam apenas alguns pertences pessoais ao chegar ao Líbano.

Moradores da cidade libanesa de Arsal (norte do país) disseram que, só no domingo, cerca de 150 famílias sírias chegaram ali.

"O que podemos fazer? As pessoas estão sendo atacadas por tanques enquanto estão sentadas em suas casas", disse à Associated Press a síria Hassana Abu Firas, que se abrigou na cidade fronteiriça libanesa de al-Qusair. "Os que podem fugir, fogem. Os que não podem, morrem sentados."

A repressão aos protestos antigoverno na Síria, em curso há cerca de um ano, já deslocaram mais de 70 mil pessoas no país, segundo estimativas da ONU. Mais de 20 mil delas fugiram para os vizinhos Líbano, Turquia e Jordânia. Quase 7 mil estão registradas na UNHCR no norte libanês.

Image caption Muitas mulheres disseram que seus maridos e filhos homens foram detidos por forças de segurança

Refugiados de Homs - que fica a 15 km de al-Qusair - disseram à BBC que as forças de segurança de Assad estão cometendo atrocidades na cidade, há semanas sitiada.

'Gritos'

Nos arredores de Homs, uma síria disse ao correspondente da BBC Paul Wood que seu filho foi morto pelas tropas de Assad na última sexta-feira. "A garganta dele foi cortada. Ele tinha só 12 anos", relatou.

A morte foi testemunhada pelo marido dela, que disse que disse ter visto um soldado prender a cabeça do menino com sua bota, enquanto outro o degolava. "Eu ouvia seus gritos", disse ele.

A mulher síria disse ainda que outros 35 homens e garotos da região foram mortos ou presos.

Opositores e ativistas de direitos humanos afirmaram que forças de segurança e milícias pró-governo têm detido meninos acima de 14 anos em Baba Amr, para torturá-los e matá-los.

As alegações não podem ser verificadas de forma independente, por conta das restrições ao trabalho jornalístico na Síria. Mas um desertor do Exército sírio disse ao correspondente da BBC que recebeu ordens de seu comandante de "atirar contra tudo que se movesse, fosse civil ou militar".

Nos arredores de Homs, Paul Woods relata que o clima é de medo. Uma residência hoje abriga seis mulheres e seus 17 filhos, mas nenhum homem - todos, segundo elas, foram detidos em um posto de checagem. "Eles foram encapuzados e levados", disse uma das mulheres, Um Abdo. "Eles serão assassinados."

Um agravante à situação é o fato de que o regime sírio negou o acesso da Cruz Vermelha a Baba Amr por quatro dias consecutivos, alegando preocupações de segurança. Isso fez com que ativistas alertassem para uma possível catástrofe humanitária.

Imagens feitas em Homs dão indícios de tortura até em hospitais de Homs. Vídeos - que tampouco podem ser verificados de forma independente -mostram alas hospitalares repletas de homens feridos, algemados a suas macas, vendados e com sinais de espancamento.

A alta comissária da ONU para direitos humanos, Navi Pillay, disse à emissora de TV britânica Channel 4 que as imagens se somam a outras provas reunidas por uma comissão da ONU que apura tortura em hospitais sírios, em especial hospitais militares.

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