Anfitriões de Copas passadas relembram atritos com Fifa

Torcedor com cerveja na Copa do Mundo da Alemanha, em 2006. | Foto: PA Direito de imagem PA
Image caption Ex-anfitriões também tiveram problemas com a Fifa em questões como a venda de cervejas

As recentes desavenças entre a Fifa e o governo brasileiro sobre a Copa do Mundo de 2014 têm provocado polêmica, mas os atritos com a entidade que regula o futebol também fizeram parte da relação com os organizadores de Mundiais passados.

Tanto a África do Sul, sede da Copa de 2010, como a Alemanha, que organizou o Mundial em 2006, tiveram problemas com a Fifa em algumas das mesmas questões que vêm sendo temas de divergência no Brasil.

Em entrevista à BBC Brasil, especialistas e ex-membros dos Comitês Organizadores Locais (COL) das duas últimas Copas apontam que, embora tenha havido concessões – mais do lado dos ex-anfitriões do que da entidade sediada em Zurique – a solução para driblar os confrontos é o consenso.

A crise entre o governo brasileiro e a Fifa ganhou destaque no início do mês, quando o secretário-geral da entidade, Jérôme Valcke, disse que o os organizadores deveriam levar um "chute no traseiro" para agilizar as obras necessárias e a aprovação da Lei Geral da Copa, e questionou o motivo de as coisas "não estarem andando".

O comentário foi mal recebido pelo Ministério do Esporte, que chegou a rejeitá-lo como interlocutor, mas após um pedido de desculpas o episódio se dissipou.

Para tentar retomar as relações e acelerar a organização do Mundial, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, se reúne nesta sexta-feira, ao lado de Pelé, com a presidente Dilma Rousseff.

A visita ocorre um dia após o Congresso ter mais uma vez adiado a votação da Lei Geral da Copa e pouco mais de uma semana após renúncia de Ricardo Teixeira do comando da CBF e do COL.

Cerveja

A venda de bebidas nos estádios, que agora é motivo de disputa e confusão no Congresso brasileiro, também criou divergências comerciais e de preferência tanto na Alemanha como na África do Sul.

"Sempre foi possível comprar cerveja nos estádios sul-africanos. O problema é que os parceiros da Fifa bateram de frente com os patrocinadores locais", diz o jornalista Peter Stemmet, da emissora sul-africana ETV News, que cobriu os jogos.

Ele afirma que, no país, as marcas dão nome aos estádios. "O Soccer City na verdade chama-se FNB Stadium. Ellis Park é o Coca-Cola Park, e o Free State Stadium, na realidade, é o Vodacom Park. Nossos estádios tiveram que mudar de nome por exigência da Fifa."

"Além disso, entre os torcedores houve insatisfação quando descobriram que a única cerveja disponível nos estádios seria americana. As cervejas sul-africanas são muito boas", avalia.

No país da cerveja, o lobby dos fabricantes foi mais eficiente. Por iniciativa do Parlamento do Estado da Baviera, no sul do país, a Alemanha acabou firmando um acordo com a Fifa: 40% da cerveja vendida nos estádios foi alemã, mas servida em copos transparentes para que sua marca não ficasse visível.

Consenso e 'conto de fadas'

Primeiro vice-presidente do COL alemão e braço gerencial de Franz Beckenbauer na chefia da organização da Copa de 2006, Horst Schmidt diz que não houve uma Lei Geral da Copa na Alemanha.

Embora a Fifa inicialmente tenha cobrado o país a respeito, o governo alemão entendeu que não havia a necessidade de criar novas leis e que a legislação existente já cobria os compromissos assumidos.

Já a África do Sul aprovou a sua rapidamente, cinco anos antes do evento. De acordo com Schmidt, que hoje em dia é consultor do subcomitê de ingressos da Fifa, a legislação sul-africana da época tornava essencial a criação de uma lei geral para o Mundial.

Ao recordar a experiência com os preparativos para a Copa de 2006, o gerente do COL alemão afirma que há margem de negociação com a Fifa, mas somente por meio de acordos.

"Não dá para chegar para a Fifa e dizer 'não vamos fazer isso'. Ambos os lados têm que concordar", disse Schmidt à BBC Brasil em Doha, onde participou da 2ª Conferência Internacional em Segurança no Esporte.

Jens Grittner, atual diretor de comunicações da Federação Alemã de Futebol (DFB, na sigla em alemão) e ex-membro da diretoria de mídia do COL em 2006, diz que a preparação de uma Copa é desafiadora e que os alemães também foram alvo de pressão da Fifa, embora em um contexto diferente do Brasil.

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Image caption Sul-africanos insistiram com a Fifa que não era viável vender ingressos somente pela internet no país

"Dois anos antes da Copa do Mundo de 2006, também enfrentamos duras críticas. Por exemplo, a construção do estádio de Frankfurt só foi finalizada pouco antes da Copa das Confederações, em 2005. Mesmo assim, ninguém se lembra disso. O que fica é a ideia do 'conto de fadas' do verão do ano seguinte", diz.

'Dona da Copa'

No caso da África do Sul, o ex-diretor de comunicações do COL 2010, Rich Mkhondo, diz que a Fifa também pressionou os organizadores locais, mas agora avalia que é necessário perceber o papel da entidade em relação aos jogos.

"Os brasileiros precisam entender que a Fifa é a dona da Copa do Mundo e vai fazer as coisas do jeito que ela quer, e não do jeito que o Brasil quer. Mesmo que não concordássemos com alguns aspectos, sabíamos que eram eles que estavam tomando as principais decisões", afirmou Mkhondo à BBC Brasil.

"A Fifa não compartilha a estratégia dela com você", acrescenta o sul-africano. "No caso do Brasil, o que importa para a Fifa é que os jogos precisam começar em junho de 2014, e eles querem os estádios e tudo o que é necessário para isso aprovado e pronto."

Mesmo assim, ele admite que em alguns pontos foi preciso insistir. "Quanto à venda dos ingressos, a Fifa não concordava com alterações em seu sistema, basicamente online. Eles não entendiam que a maioria dos sul-africanos não tem computador em casa. Foi um processo de educação, tivemos que explicar", relembra.

Mas se bater de frente não é o melhor caminho, ceder demais também pode causar problemas. Peter Stemmet diz que muitos em seu país criticaram a posição das autoridades sul-africanas, que teriam sido condescendentes demais com a entidade.

"Os sul-africanos achavam que nós tínhamos vendido nossa alma para a Fifa. Eles nos diziam o que fazer e nós obedecíamos sem titubear. Eu duvido que um membro do comitê da África do Sul teria tido coragem de dizer não à Fifa na época".

Rich Mkhondo lembra que outra motivo de frustração entre a população foi a impossibilidade de atuação de ambulantes em um raio de 1 quilômetro ao redor dos estádios. "Muitos sul-africanos acharam que iam ganhar dinheiro durante as partidas, o que não aconteceu."