Massacre representa novo desafio em plano de retirada do Afeganistão

O secretário de Defesa americano, Leon Panetta, em visita ao Afeganistão Direito de imagem AP
Image caption Panetta lamentou incidente, mas disse que não é o primeiro nem será o último

No Afeganistão, o foco agora é no "fim do jogo". Mas pairam dúvidas sobre esse fim e cresce a tensão sobre as regras do jogo.

O tão anunciado plano de transição, que tem o objetivo de permitir às forças estrangeiras uma retirada ordenada e honrosa até 2014, enfrenta uma crise atrás da outra. Somente na semana passada, parecia haver um novo incidente a cada dia.

"Com a paciência no limite" é o termo que o presidente afegão, Hamid Karzai, usa agora para se referir a essa relação, que está em risco.

Foi com esse espírito irritado que ele saiu de um emocionado encontro com uma delegação de líderes tribais e camponeses de Kandahar, que viajaram a Cabul para discutir com o presidente o massacre perpetrado por um soldado americano, que matou 16 civis afegãos no domingo passado.

Quando eu fiz uma pergunta, ao final do encontro, o presidente demonstrou que claramente queria colocar em dúvida, publicamente, a versão dos Estados Unidos de que o massacre havia sido obra de um soldado americano desajustado que perdeu o controle.

"Essas ações horríveis não podem ser toleradas", disse Karzai, referindo-se aos ataques noturnos e outras operações militares da Otan às quais ele repetidamente se opõe. Um dia antes, ele havia pedido que as forças da Otan deixassem az zonas rurais afegãs e retornassem às suas bases.

Irritação

Em público, seus aliados americanos e de outros países da Otan vêm se esforçando para manter um discurso confiante de "parceria duradoura".

Mas reservadamente eles demonstram irritação com um presidente imprevisível, enquanto tentam manter o foco em suas prioridades nesse fim de jogo: garantir ganhos no campo de batalha contra o Talebã e treinar um número suficiente de afegãos, para que possam continuar a luta após a retirada das forças internacionais.

Líderes militares afegãos concordam com seus colegas da Otan sobre o fato de que não estão prontos ainda. Até mesmo o presidente já aceitou discutir, de má vontade, táticas militares que seus aliados ainda consideram essenciais, mas seu tom vem claramente subindo.

Apesar disso, fontes da Otan estão confiantes de que finalmente poderão assinar uma muito esperada parceria estratégica entre Estados Unidos e Afeganistão, que manteria algumas tropas americanas em bases afegãs após 2014. Há até esperança de um acordo na questão mais sensível, a dos ataques noturnos.

Caso oncretizada, essa conquista seria o ponto alto da reunião de cúpula da Otan marcada para maio, em Chicago.

Os Estados Unidos também esperam poder aproveitar o encontro para relatar progressos em seu frágil diálogo com o Talebã, apesar de o grupo ter se retirado do processo na semana passada devido ao que chamou de "ponto de vista vacilante, errático e vago dos americanos".

Mas os poucos meses até maio são um longo período em meio ao que o secretário de Defesa americano, Leon Panetta, constantemente se refere como "o inferno da guerra".

Panetta já lamentou repetidas vezes o trágico incidente em Kandahar. Mas ao mesmo tempo, adverte que não é o primeiro incidente do tipo, e nem será o último.

Questionamento

Os afegãos têm invocado um provérbio com sentimento semelhante: "A cada dia, fica pior, não fica melhor".

Eu ouvi esse provérbio do tenente Nasser, um instrutor afegão, enquanto ensinava soldados afegãos no Centro de Treinamento Militar de Cabul a lançar granadas. Houve várias exclamações de "Allah u Akbar" (Deus é grande).

"Nós fazemos o que pudemos para treiná-los, mas não podemos prever o que vai acontecer no futuro", filosofa o tenente Nasser.

Os soldados da Otan também foram vítimas de incidentes, como quando afegãos vestindo uniformes militares abriram fogo contra eles.

Direito de imagem DVIDS
Image caption O sargento americano Robert Bales (à esquerda) foi identificado como autor de massacre no Afeganistão

No que é o principal centro de treinamento militar do Afeganistão, as altas quantias e o comprometimento que a Otan, e principalmente os Estados Unidos, investiram nessa missão são evidentes.

"A diferença é astronômica", diz o major canadense Carl Bennett, enquanto aponta para um vasto complexo de campos de treinamento repleto de estradas movimentadas por um fluxo constante de novos equipamentos militares.

"Não havia nada aqui até poucos anos atrás."

Mas quando eu perguntei a um jovem guarda afegão sobre as forças armadas americanas, ele respondeu com um insulto: "Kafirs!" (Infiéis).

Pouco depois, acrescentou: "Havia mais respeito alguns anos atrás. Nossos líderes afegãos também precisam fazer mais para conquistar confiança".

Mais de uma década depois de o regime Talebã ter sido deposto e de os aliados ocidentais terem embarcado em uma nova relação com o Afeganistão, questiona-se por que essa parceria ainda é marcada por tantos percalços e desentendimentos.

Em um famoso café de Cabul, mesmo aqueles afegãos que conseguiram ser beneficiados por bolsas de estudo e salários oferecidos pelo Ocidente estão perplexos.

"É difícil digerir e entender como, depois de tantos anos de engajamento, a comunidade internacional ainda não se dá conta das questões que são importantes para os afegãos", diz Suleman Fatimi, que já trabalhou para o governo e para o setor privado.

Ele cita a recente queima do Corão em uma base militar americana.

"Nós todos esperávamos por um caminho suave até 2014", diz Waheed Omer, ex-assessor presidencial afegão.

"Cada incidente desses torna o caminho mais difícil para aqueles entre nós que gostariam de ver uma parceria estratégica de longo prazo", afirma.

As preocupações dos afegãos a respeito desse "fim de jogo" não se restringem ao engajamento militar.

Alguns estão mais preocupados sobre o que quase certamente será uma eleição presidencial problemática, também marcada para 2014.

O último pleito foi marcado por alegações de fraude e intromissão do Ocidente, e já há especulações sobre se o presidente Karzai vai manter sua promessa de deixar o poder.

Outros estão preocupados em garantir que a tão necessária ajuda aos civis não seque após a retirada.

"O governo afegão está concentrado unicamente em sua sobrevivência neste momento", diz um funcionário ocidental envolvido em ações de ajuda humanitária que atua há anos na região.

"Eles estão tentando conseguir o máximo que podem da comunidade internacional antes da retirada", afirma.

Há também crescente preocupação sobre a corrupção generalizada no Afeganistão.

No Parlamento afegão, o parlamentar Ramazon Bashardost declarou: "Nós ainda precisamos de apoio financeiro e militar. O presidente Karzai não poderia nem mesmo comprar chá para o palácio presidencial sem dinheiro estrangeiro".

Vestido com uma túnica branca decorada com as cores da bandeira afegã, ele exclamou: "Os estrangeiros podem ficar por cem anos se suprirem as necessidades do povo afegão, em vez dos senhores da guerra corruptos".

Por enquanto, todos estão apenas tentando sobreviver aos próximos dois anos. Esses dois anos podem representar a diferença entre algo que pode ser considerado um sucesso ou um fracasso total.

"Nós estamos no fim do jogo", diz o major Bennett. "Mas eu garanto que se nos retirarmos agora, nós estaremos de volta em 20 anos, começando do zero outra vez."

Notícias relacionadas