Suspeito de ataques na França era monitorado havia anos

Carros da polícia perto da casa do suspeito em Toulouse Direito de imagem AP
Image caption Casa do suspeito fica a três quilômetros do local do ataque à escola judaica na segunda-feira

O francês de origem argelina Mohamed Merah, de 24 anos, suspeito de ter matado quatro pessoas em uma escola judaica em Toulouse e três militares em outro ataque, estava sendo investigado havia vários anos pelos serviços secretos da França, declarou nesta quarta-feira o ministro do Interior, Claude Guéant.

"O homem estava sob investigação da direção central dos serviços de inteligência há bastante tempo por seu engajamento e radicalização salafista", disse o ministro.

Os salafistas são considerados fundamentalistas, que aplicam a sharia - a lei islâmica - de maneira radical. Eles defendem o retorno do islã às suas origens, baseado na aplicação rigorosa do Corão.

O jovem teria também ligações com pessoas ligadas à jihad - a "guerra santa", segundo Guéant.

"Mas nada permitia pensar que ele estivesse a ponto de cometer atos criminosos", acrescentou o ministro, afirmando ainda que as autoridades francesas "têm certeza" de que o jovem é o autor dos ataques contra a escola judaica na segunda-feira e contra militares na semana passada.

"Nós sabemos, e é por isso que ele estava sendo investigado, que ele fez viagens ao Paquistão e ao Afeganistão".

Oficiais afegãos disseram à BBC que Mohammed Merah havia sido condenado à prisão em 2007, após ser preso com equipamento para fabricação de bombas. Ele teria fugido da prisão em 2008.

No entanto, o Centro de Mídia e Informação de Kandahar disse nesta quarta-feira, em seu perfil de Twitter, que "as forças de segurança do Afeganistão nunca prenderam um cidadão francês chamado Mohammed Merah".

A advogada de Merah, Christian Etelin, disse à agência de notícias AP que seu cliente esteve preso na França entre dezembro de 2007 e dezembro de 2009 por assalto.

A notícia de que o suspeito estava sendo investigado há anos pelos serviços secretos surpreendeu e está sendo bastante comentada na França. Mas o ministro não afirmou se as informações obtidas com esse monitoramento poderiam ter evitado os ataques.

Um dos irmãos do suspeito, que está detido e sendo interrogado, também "é conhecido por ter posições radicais" islâmicas, disse Guéant.

Al Qaeda

A polícia de elite fechou o cerco à casa do suspeito nesta madrugada. Segundo o ministro, o jovem afirmou aos policiais ter ligações com a rede Al Qaeda e disse que quis vingar a morte de crianças palestinas e punir a França por sua intervenção militar no Afeganistão.

O ministro do Interior afirmou ainda que Merah tem ficha na polícia por "vários crimes de direito comum", cerca de uma dezena, alguns deles cometidos com o uso da violência.

Guéant não especificou os crimes "de direito comum". Sabe-se que ele foi condenado a um mês de prisão por ter dirigido sem carteira.

O ministro disse que ainda não é possível determinar se o suspeito pertence a uma organização salafista.

"O que é certo é que em cada um dos ataques ele agiu sempre sozinho", afirmou Guéant.

Armas

Vizinhos do suspeito, que mora em Toulouse, no sudoeste da França, dizem que ele parecia alguém integrado à sociedade.

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Image caption Corpos dos mortos no ataque de segunda-feira foram levados a Israel, onde serão enterrados

"Ele é uma pessoa extremamente determinada", disse o ministro. O perfil do autor dos ataques, realizados por especialistas criminais, descrevem uma pessoa fria e organizada, que preparou meticulosamente as ações, e também ousada, já que os disparos ocorreram todos à luz do dia e em áreas movimentadas.

O jovem também possui inúmeras armas, segundo o ministro, como fuzis Kalaschnikov AK-47 e Uzi.

A revista Le Point afirma que o jovem teria tentado se inscrever na Legião Estrangeira, mas teria sido recusado. Ele trabalharia em uma oficina de conserto de carros.

A família do suspeita está detida e sob interrogatório. A mãe de Merah foi levada ao local do cerco, mas não quis falar com o filho, alegando que ele "não a ouviria".

Merah se tornou o inimigo público número 1 da França. A polícia conseguiu localizá-lo graças ao endereço IP do computador de um familiar do suspeito.

O primeiro paraquedista morto, no dia 11 de março, havia colocado um anúncio na internet para vender sua moto e a polícia acreditava que ele foi assassinado durante um encontro com um suposto comprador.

Quase 600 pessoas haviam se conectado ao anúncio. A polícia conseguiu reduzir a lista de suspeitos, que incluía a família de Merah e que foi colocada sob escuta telefônica.

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