Visita do papa desperta esperança por reformas em Cuba

O papa Bento 16 e o ex-presidente cubano Fidel Castro Direito de imagem AP
Image caption No último dia da visita, o papa Bento 16 se reuniu com Fidel Castro em Havana

A passagem do papa Bento 16 por Cuba, 14 anos depois que João Paulo 2º esteve na ilha, se deu em meio a um momento de reformas e abertura econômica no país comunista.

Embora os Castro ainda estejam no poder e Havana ainda seja acusada por violações de direitos humanos, muita coisa já mudou. Para os cubanos, no entanto, a proximidade com a Igreja é uma esperança de mais progressos e liberdades.

Entre as mudanças mais visíveis no país estão a profusão de pequenos estabelecimentos comerciais, como pizzarias, alfaiatarias e pequenas lojas que divulgam seus serviços ainda de forma muito rudimentar.

São reflexos de novas leis introduzidas neste ano que liberaram também a venda de imóveis.

Em árvores no centro da capital cubana é possível ver pequenos pedaços de papel com anúncios do tipo "Casa grande, $ 40 mil, casa pequena, $ 10 mil".

Muitos levam anúncios com informações sobre seus imóveis pendurados no pescoço, e andam pelo centro de Havana aos sábados, quando ocorre um verdadeiro mercado informal de casas e apartamentos.

A corretagem de imóveis não foi liberada de acordo com as novas regras, e por isso as negociações são feitas diretamente entre compradores e vendedores.

Decadência

Se por um lado o governo liberou as vendas de imóveis, por outro, nos últimos anos muitas casas e prédios se deterioraram ao ponto de quase desabarem.

Muitas famílias são obrigadas a morar em apartamentos de um quarto, lidando com apagões e a ausência de eletricidade e água encanada.

Um morador levou o repórter da BBC Ian Pannell a um prédio de apartamentos e reclamou das condições miseráveis em que ele e seus vizinhos vivem.

"O governo não faz nada por nós, eu não posso nem mesmo comprar comida suficiente", disse.

Outro morador do local diz que gostaria que as reformas mudassem mais a estrutura econômica do país e que gostaria que os cubanos pudessem ter autorização para deixar o país.

"Você pode me visitar no meu país, por que eu não posso visitá-lo na Grã-Bretanha?", ele pergunta.

Ele culpa os Estados Unidos e o embargo, que já dura mais de 50 anos, mas ressalta que o país precisa mais de avanços econômicos do que políticos.

'Comunismo tropical'

Embora a maior parte dos cubanos mantenha sua atenção mais focada em como passar mais um dia e dar conta de suas necessidades ao invés de orações, a visita do chefe da Igreja Católica é vista como um sinal de esperança por mudanças.

Apesar de o regime ter apoiado o ateísmo e muitos católicos terem sido perseguidos nos anos seguintes à revolução, atualmente o país garante a liberdade religiosa e em teoria um cubano pode ser católico e membro do partido comunista ao mesmo tempo –por mais contraditório que isso possa parecer.

O Vaticano fala em "comunismo tropical" para diferenciar entre o ateísmo soviético e o sistema laico em Cuba.

O termo também é empregado para explicar o papel do clero em tentar fomentar mudanças trabalhando "de dentro" do sistema.

"No passado foi dito a todos que eram ateus, mas esta não é a cultura cubana", diz o monsenhor Juan De Dios, da Conferência dos Bispos Católicos de Cuba.

"Felizmente as autoridades perceberam que a fé não é incompatível com ser uma boa pessoa, na verdade é justamente o contrário. Por isso a relação com as autoridades hoje é muito mais estável."

'Mensagem equivocada'

A igreja também tem sido criticada por ter se aproximado do regime cubano. Uma carta com 750 assinaturas de ativistas foi enviada ao papa, dizendo que sua visita "seria como enviar uma mensagem aos opressores que eles podem continuar fazendo o que quiserem, que a Igreja vai permitir".

O Vaticano insiste que a visita do papa não é política e que ele não pode se encontrar com dissidentes. Mas em declarações pouco antes de desembarcar em Cuba, o papa pediu por liberdade de consciência no país e disse que a "ideologia marxista, como foi concebida, não corresponde mais à realidade".

E ao falar sobre "novos modelos", o papa pediu de forma velada por mais reformas.

"A Igreja Católica não está do lado do governo ou do lado dos dissisdentes, está do lado do povo", diz o monsenhor De Dios.

A massa de fieis em Havana na quarta-feira deve esperar e rezar para que isso seja verdade e para que a visita do papa Bento 16 traga a mudança que eles tanto desejam um pouco mais perto.

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