Saiba como é a vida de um espião britânico hoje

Daniel Craig como James Bond Direito de imagem Rex Features
Image caption Espiões revelam o que é mito e o que é realidade no mundo da espionagem

A maioria das pessoas está familiarizada com o universo dos espiões representado na literatura e no cinema por personagens carismáticos como James Bond ou Jason Bourne. Mas o quanto esses retratos se assemelham à realidade?

A BBC teve acesso a funcionários dos serviços secretos britânicos MI5 (o serviço doméstico de segurança) e MI6 (o serviço internacional de segurança) para tentar responder a essa pergunta.

Os funcionários, cujos nomes foram alterados, não foram autorizados a discutir operações específicas ou questões políticas.

Após uma série de entrevistas, o que se conclui é que, embora as operações descritas nos livros e telas sejam fortemente inspiradas na realidade, os responsáveis por essas secretas - e potencialmente perigosas - atividades têm pouco a ver com os espiões fictícios.

Território inimigo

Na opinião de Michael, que trabalha para o MI6, recrutar e dirigir o trabalho de agentes em território estrangeiro é uma das mais perigosas e difícieis atividades de um espião moderno. E é exatamente isso o que ele faz, trabalhando em regiões sob o controle da organização Al-Qaeda.

"Nossa habilidade de penetrar nessas redes terroristas é crítica para que possamos ser alertados, de antemão, sobre as ameaças que enfrentamos", ele disse.

E como funciona?

"Primeiro, procuramos nosso alvo. Nosso objetivo é chegar tão perto do topo quanto possível. Tentamos mapear, dentro das nossas possibilidades, aquela rede terrorista, entender quem são as figuras chave, as conexões entre elas, para tentar conseguir uma visão real de quem são os indivíduos nessa rede em particular".

"Podemos chegar a eles? São acessíveis? Será que teriam acesso a informações úteis para o governo? Será que poderiam ser motivados a trabalhar com o SIS (sigla para Secret Intelligence Service, ou Serviço Secreto de Inteligência), como informantes?"

O próximo passo é o recrutamento em si.

"Cabe aos nossos oficiais pensar: 'Sob que disfarce eu poderia abordar esse indivíduo? Qual seria a melhor forma de desenvolver um relacionamento com ele (ou ela)?' Cada abordagem será criada sob medida para aquele agente, ou agente em potencial, para persuadi-lo (la), em tempo, a trabalhar para o SIS".

Entre as razões do novo agente para aceitar o convite podem estar a desilusão com a ideologia violenta da Al-Qaeda, vontade de ir viver na Grã-Bretanha ou dinheiro.

Michael admite que o primeiro contato com um agente em potencial deixa qualquer espião com o coração na boca.

"Quando você está em algum ponto remoto e empoeirado, em áreas onde não existe governo, prestes a encontrar pela primeira vez um contato de uma organização terrorista, fica com os nervos em frangalhos. Tudo o que fazemos envolve risco. Não acho que iríamos muito longe se tivéssemos aversão a riscos, (embora) façamos o possível para minimizá-los".

Outro mito que não tem fundo na realidade é o de que espiões modernos são educados nas universidades britânicas de elite, Oxford e Cambridge.

Vigilância

Shami achava que não tinha a menor chance de ser recrutado. Ele não tem nível universitário.

"Meu entendimento era de que você tinha de ser da classe alta, academicamente brilhante, branco e do sexo masculino. Eu achava que não tinha nada a oferecer.".

No entanto, Shami se candidatou pela internet a um emprego no MI5 e, para sua surpresa, após uma avaliação rigorosa, recebeu uma oferta de emprego. Depois da última entrevista, a equipe de recrutamento apertou sua mão e lhe disse: "Parabéns!"

Embora Shami não soubesse, ele era exatamente o tipo de pessoa que o MI5 estava procurando para operações de vigilância que, invariavelmente, são o ponto de partida para investigações de supostos grupos terroristas.

Shami é esperto, inteligente e capaz de se encaixar em qualquer grupo ou comunidade.

Vigilância, tanto humana quanto técnica, foi a base das operações secretas que resultaram na prisão de integrantes de núcleos islâmicos que planejavam fabricar bombas de fertilizantes (para atacar Londres e o sudeste da Inglaterra) e explosivos líquidos (para derrubar aviões que cruzavam o Atlântico).

A anonimidade é a chave para o sucesso da operação de Shami.

"Você está constantemente analisando seu próprio comportamento e o comportamento dos outros. As roupas que você veste, o jeito como anda e fala, tudo isso são fatores a respeito dos quais você precisa refletir constantemente".

"Você tem de se misturar à paisagem, tem de ser como uma cor neutra. Um João Ninguém, uma pessoa por quem alguém passa mas depois de um segundo já se esqueceu".

Shami admite que sente prazer no desafio e conta que seu maior medo é "deixar passar uma informação vital que pode resultar em perda de vidas". Sua grande satisfação é "a prisão dos indivíduos que estão do lado oposto".

Imagem

Enquanto agentes como Shami atuam lá fora, Emma trabalha no quartel general do MI5.

Assim como Shami, ela tinha uma imagem do M15 que não tem nada a ver com a realidade.

"Eu achava que (os agentes) seriam na maioria homens, e que as mulheres seriam secretárias ou a Miss Moneypenny do James Bond".

Emma trabalha em uma equipe que investiga assuntos relacionados à Al-Qaeda e seu trabalho é analisar informações que vêm de uma grande variedade de fontes técnicas e humanas, assim como de agências parceiras.

"É como juntar as peças de um quebra-cabeças", ela disse.

Assim como Shami, Emma foi motivada a trabalhar para o MI5 pelos atentados de 7 de julho de 2005 em Londres.

"Para mim, 7 de julho foi um grito de alerta para quão grave é o problema do extremismo islâmico", disse.

A mãe de Emma ficou preocupada quando a filha lhe contou que ia trabalhar para o M15.

"(Minha mãe) ficou horrorizada. Ela tinha assistido Spooks (sériado da BBC conhecido no Brasil como Dupla Identidade) e sua reação inicial foi, 'Meu Deus, você vai acabar com sua cabeça numa frigideira'".

O comentário se refere a um episódio em que uma jovem agente do MI5 é torturada e tem sua cabeça mergulhada em uma panela com gordura fervente.

Emma sabe que, para que as peças do quebra-cabeças se encaixem, são necessárias informações vitais que vêm de fontes humanas ou de agentes recrutados em organizações suspeitas de atividades terroristas. Elemento comum à trama de várias produções hollywoodianas.

"(As informações trazidas pelos agentes) são, com frequência, o que nos permite perguntar as questões mais inteligentes e afiadas".

Perguntas

Mas recrutar e dirigir o trabalho dos agentes pode gerar perguntas letais - por exemplo, se a fonte for um agente duplo.

Um outro seriado de TV, a produção americana Homeland, se baseia justamente nessa questão.

No mundo real, esse tipo de situação é muito possível, e muitas precauções são tomadas para checar se um agente é genuíno.

Mas as semelhanças teminam aí. Michael vê os filmes de James Bond, por exemplo, como pura fantasia.

"Um elemento chave no mito de James Bond é que somos um tipo de organização paramilitar - não é o caso".

E a famosa "licença para matar"?

"Não temos!"

Anna, colega de Michael no MI6 em Londres, confirma.

"Se o James Bond trabalhasse no MI6 hoje, passaria grande parte do tempo sentando em uma escrivaninha lidando com a papelada e assegurando que tudo estava esclarecido e autorizado".

"Ele com certeza não seria o lobo solitário dos filmes".

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