Formação no MIT e Harvard 'me deu asas', diz empresário e pesquisador brasileiro

Fábio Thiers Direito de imagem Arquivo Pessoal
Image caption Desde 1998 nos EUA, Fábio Thiers faz parte daquilo que se convencionou chamar de 'fuga de cérebros'

Uma ferramenta online para facilitar e baratear a criação e o desenvolvimento de remédios e fazer com que novos medicamentos acabem chegando mais rapidamente ao consumidor. É o que promete o pesquisador brasileiro Fábio Thiers que, após um mestrado, um PhD e dois pós-doutorados em duas das mais respeitadas instituições de ensino dos EUA, dirige, a partir de Nova York, uma empresa que pode se tornar uma espécie de "LinkedIn" da indústria farmacêutica.

O pernambucano Thiers faz parte daquilo que se convencionou chamar de "fuga de cérebros", a migração de profissionais e cientistas altamente qualificados de países pobres ou emergentes para mercados mais desenvolvidos.

Dedicando-se à pesquisa desde os tempos em que cursava Medicina na Universidade Federal de Pernambuco, Thiers foi convidado, pouco após se formar, a se juntar à equipe de pesquisadores da Harvard Medical School, nos Estados Unidos, onde desembarcou em 1998.

Alguns anos depois, enquanto participava de um programa que une a Universidade de Harvard e o MIT (Massachusetts Institute of Technology) - um dos mais importantes centros de excelência em ciência e tecnologia dos Estados Unidos -, Thiers começou a se interessar pelo modo como são feitos os testes clínicos para o desenvolvimento de novos remédios.

"Essa atividade de pesquisa clínica é executada por meio de projetos individuais, e cada projeto envolve até centenas de centros no mundo todo. Esse foi um processo que se tornou globalizado na última década, principalmente. E há uma ineficiência muito grande na seleção desses centros", explica Thiers, acrescentando que bilhões de dólares são desperdiçados anualmente pela indústria farmacêutica com a escolha de centros de testes inadequados.

As conclusões fizeram com que ele passasse a realizar um mapeamento dos centros de pesquisas em todo mundo e lhe renderam um PhD, um mestrado, além de uma posição como diretor de um programa de pesquisas no MIT.

Mercado

O pesquisador, no entanto, também percebeu um grande potencial de mercado no problema. Viu que utilizando tecnologia de informação e a internet seria possível fazer um enorme mapa global dos centros de pesquisa.

Assim, antes da realização de testes, empresas e laboratórios poderiam receber informações precisas sobre cada centro, evitando escolhas inadequadas e poupando recursos.

Tendo isso em vista, ele criou, em 2010, o ViS Research Institute, que já mapeou mais de 400 mil centros de pesquisa em todo mundo.

Com representantes em 13 cidades de países como Brasil, Estados Unidos, Alemanha, Índia e Coreia do Sul, a empresa desenvolveu uma plataforma que mistura a interação de uma rede social como o LinkedIn com as informações técnicas do setor.

O sistema ainda está em fase de testes e deve ser lançado oficialmente em julho, mas a empresa já conta com uma equipe de 30 pessoas e com uma rede de especialistas espalhados pelo mundo.

'Asas'

Para Thiers, a experiência que ele adquiriu no MIT e em Harvard - as duas instituições que a presidente Dilma Rousseff visita nesta terça-feira - foi importante para que ele pudesse desenvolver sua linha de pesquisa e posteriormente fundar a empresa.

"Eu tive um ambiente no MIT onde eles me deram asas para criar um projeto que se iniciou totalmente da minha cabeça", diz.

Embora ressalte que o Brasil teria toda a tecnologia para desenvolver projetos como os dele, o pesquisador afirma que a principal diferença entre estas instituições e universidades brasileiras é a integração entre diversas disciplinas e o fato de elas abrigarem pessoas de todo o mundo.

"Harvard e MIT têm um ambiente internacional. Lá eu pude aprender a interagir com pessoas de outras nacionalidades e das mais diversas áreas."

Atualmente morando em Nova York, Thiers afirma sentir que parte dos profissionais brasileiros em áreas como ciência e tecnologia acaba tendo uma visão pouco global, o que muitas vezes impede que iniciativas do país acabem ganhando outros países.

"Às vezes, parte do problema é não ter a noção do que está lá fora, do tamanho do mercado, do tamanho do Brasil em relação ao mundo. (...) Saber o quanto o mundo é grande pode dar um gás para aqueles indivíduos darem um salto maior", diz.

Para Thiers, programas como o Ciência Sem Fronteiras, um dos focos da viagem de Dilma aos EUA e que prevê a concessão de 100 mil bolsas de estudo para pesquisadores e estudantes brasileiros em diversas universidades do mundo, podem contribuir para este salto.

"Esse foco internacional vai trazer uma escala de desenvolvimento para a tecnologia brasileira muito grande. A gente tem que aprender o caminho das pedras de como desenvolver essa tecnologia, como patentear, como proteger e como criar uma presença internacional. Isso é tudo know-how que ainda é escasso no Brasil."

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