Nova crise do euro teria efeito 'limitado' na América Latina, diz FMI

Plantação de soja em Cuiabá (Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption Exportação de produtos básicos voltada para China é um dos fatores que protegem AL de crise do euro

Mesmo se a crise na zona do euro voltar a recrudescer, os efeitos dela na América Latina e no Brasil seriam limitados, avalia um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgado nesta terça-feira.

Com as exportações de produtos básicos mais voltadas para a China, os fluxos de capital financeiro retornando e um conjunto de bancos internacionais com grande grau de autonomia em relação a suas matrizes, a região está relativamente protegida de um choque no outro lado do Atlântico, diz o órgão.

O primeiro capítulo do Panorama Econômico Internacional (World Economic Outlook) observa que a região sentiu os efeitos da crise na zona do euro tanto na sua corrente de comércio quanto em seus sistemas financeiro e bancário, mas estes efeitos foram apenas "limitados".

Da mesma forma, avalia o estudo, "o contágio da região por causa de uma crise renovada na Europa deve ser limitada".

A América Latina e a África ao sul do Saara são as regiões menos expostas a essa vulnerabilidade, na visão do FMI. Na Europa e no Norte da África estes efeitos seriam ou "muito fortes" ou "fortes".

Entretanto, ressalvou o Fundo, os fluxos de capital para a região, no momento em que os índices de inflação estão novamente em alta, merecem a atenção dos governantes.

Para o FMI, os países devem tirar lições das políticas de cautela adotadas durante o mais recente fluxo de recursos externos.

Projeções de crescimento
2012 2013
Mundo 3,5 4,1
EUA 2,1 2,4
Zona do Euro -0,3 0,9
América Latina 3,7 4,1
México 3,6 3,7
Brasil 3,0 4,1
Rússia 4,0 3,9
Índia 6,9 7,3
China 8,2 8,8
África do Sul 2,7 3,4

Fonte: FMI, World Economic Outlook, Abril/2012

"Seria prematuro relaxar as políticas enquanto a inflação permanecer próxima do teto das metas e os riscos tenderem a pressionar para cima", recomenda o estudo, que ressalta os riscos em especial da Venezuela e Argentina.

"Oscilações recentes dos fluxos de capital são um argumento poderoso para que os governos da região continuem a fortalecer seus marcos de prudência, a fim de estar preparados para futuras bolhas ou estouros destes fluxos."

Passo lento

Nos dois capítulos do relatório divulgados na terça, o FMI alerta que "os riscos para a economia global permanecem elevados", apesar de os indicadores mostrarem uma lenta recuperação do revés sofrido em 2011.

O diretor do Departamento de Pesquisas do FMI, Olivier Blanchard, disse em entrevista em Washington que a economia global vive um momento de "calma nervosa".

"Tem-se a impressão de que a qualquer momento as coisas podem piorar. A incerteza, especialmente na Europa, vai permanecer."

O estudo avalia que a melhora recente "é muito frágil" e que só em 2013 a economia global voltará a crescer por volta de 4%.

A zona do euro deve entrar em uma leve recessão nos próximos meses, encerrando o ano com uma retração econômica de -0,3%.

Já o crescimento latino-americano, de 4,5% no ano passado, deve desacelerar para 3,7% em 2012.

Para o Brasil, o Fundo mantém projeções semelhantes às divulgadas em janeiro. O órgão projeta um crescimento para a economia brasileira de 3% neste ano – abaixo da média latino-americana – e de 4,1% em 2013.

Após uma década se beneficiando da rápida expansão do crédito e da alta das commodities, as economias emergentes devem permanecer em alerta.

O preço dos produtos agrícolas deve continuar caindo neste ano e o crédito "não pode continuar a se expandir no atual ritmo sem levantar preocupações sérias em relação à qualidade dos empréstimos".

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