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Repórter da BBC descreve clima de medo e revolta em província na Síria

Os monitores da ONU chegaram à Síria para supervisionar um frágil cessar-fogo, mas a situação no país ainda não mudou muito: a violência ainda continua e a população teme pela segurança. O repórter da BBC Ian Pannel observou este clima de medo em uma viagem secreta à província de Idlib, no norte da Síria. Leia o relato abaixo.

Ahmed Al-Aboud se juntou ao Exército Livre da Síria mas foi detido em um posto de fiscalização em Saraqib, na província de Idlib, há três meses.

Ele conta que forças do governo que o capturaram o espancaram. Em seguida, ele foi baleado e finalmente eles atearam fogo ao seu corpo e o deixaram, pensando que estava morto.

O rosto, corpo e braços de Al-Aboud estão desfigurados e ele puxa as roupas para mostrar as duas marcas de tiros. Ele é pai de oito filhos.

O fato de ele estar vivo já é surpreendente. Mas o encontramos em um protesto público, em uma área na qual as forças do governo passaram há apenas alguns dias.

"Não tenho medo, vou sacrificar minha alma e minha vida para me livrar do (presidente sírio) Bashar al-Assad", disse.

A postura desafiadora de Ahmed Al-Aboud pode ser observada em muitas das pessoas em Idlib. Mas isto não significa que a província não esteja vivendo um clima de medo.

Idlib aguentou os ataques mais pesados do governo desde março até abril.

Abdul Aziz, um idoso frágil de olhos azuis, chorou abertamente ao falar do que ele chamou de "Exército de Bashar". Ele fez um gesto, passando a mão pela garganta, em um movimento de corte, e dizendo: "Eles vão matar todos nós".

Prisões e torturas

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Image caption Civis temem o avanço das forças do governo nas províncias sírias (Foto: BBC)

Viajamos por vilarejos e cidades nas quais os prédios foram demolidos e inúmeras casas foram saqueadas e queimadas.

Os moradores contam que os suspeitos de pertencer ao Exército Livre da Síria foram reunidos e mortos. Ativistas foram detidos e torturados e muitos civis inocentes também foram mortos, segundo os rebeldes.

Assistimos a vídeos que mostram valas comuns e corpos no chão, esperando identificação.

Uma frágil calma se instalou na província. Apesar de a violência ter diminuído e muitos soldados voltado para seus quartéis, a cada dia surgem novas acusações de ataques do governo.

É impossível verificar estas informações, mas, observamos as forças do presidente Assad em uma cidade, acompanhados do som intermitente de disparos de armas.

O cessar-fogo está longe de ser perfeito e o desafio para os monitores da ONU pode não ser verificar sua aplicação, mas tentar convencer os dois lados a aderirem ao plano de paz de seis pontos do enviado da ONU e da Liga Árabe para a Síria, Kofi Annan.

Nas áreas que conseguimos visitar, não há muito otimismo.

"Somos o povo sírio e nosso crime é pedir por liberdade", afirmou Ahmed Al-Aboud.

Ele não acredita que o governo vai cumprir suas promessas. Assim como todos os que encontramos, existe um sentimento de que eles foram abandonados pelo mundo.

"A comunidade internacional, a Liga Árabe, Europa, América, todos nos decepcionara", disse Al-Aboud.

Oportunidade perdida?

Se existe uma oportunidade para o Ocidente refazer sua imagem no mundo árabe, esta parece estar desaparecendo rapidamente.

Os países ocidentais prometeram dinheiro para ajudar a Síria, mas sem ligação com aparatos militares. Mas, nesta parte do país, a única ajuda observada foram alguns rádios.

A retirada de forças militares em muitas partes permitiu que as pessoas voltassem às ruas novamente, se reunindo, gritando palavras de ordem, pedindo por liberdade e pela derrubada de um partido e de uma família que governam a Síria por muitas gerações.

Mas, é nesta parte que está o impasse do plano de Kofi Annan.

O plano pede por um processo político que trate das aspirações e preocupações do povo sírio. Mas, a diferença entre o que a oposição quer e o que o presidente Assad está disposto a ceder é maior do que nunca.

Pró-governo

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Image caption Tanques do governo ainda patrulham cidades em Idlib (Foto: BBC)

Nem todos os sírios gostam do Exército Livre da Síria ou das multidões de manifestantes. Existem áreas pró-governo, mas não conseguimos chegar até elas.

Alguns temem que este movimento seja parte de uma tomada de poder pelos islamistas, os extremistas linha-dura sunitas que querem tomar o poder e estabelecer um governo que não respeitará as minorias.

Existe uma história de tensão entre os muçulmanos sunitas que vivem em Idlib e os governantes alauitas, um ramo dos muçulmanos xiitas.

Ainda nos anos 1980, o pai de Ahmed Al-Aboud ficou preso por mais de 25 anos, detido depois de uma operação contra suspeitos islâmicos na região.

Ouvimos a mesma coisa de muitos outros em Idlib, relatos sobre seus familiares, acusados de serem membros da Irmandade Muçulmana, presos, espancados.

Isto criou uma postura de desafio em Idlib e uma promessa de que, desta vez, será diferente.

E talvez isto explique a determinação de resistir, não importa quais sejam as chances.

Se a Síria quer alcançar a paz, a paz deve ser estabelecida com as pessoas em Idlib, em Homs, em Deraa.

Mas, a violência das forças do presidente Bashar al-Assad apenas deixou esta possibilidade ainda mais remota. Estabelecer a paz será difícil para a ONU, mas encontrar um acordo político duradouro vai testar todas as habilidade diplomáticas de Annan.