Argentina ameaça fechar comércio que vender erva-mate acima da tabela

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner Direito de imagem AFP
Image caption A presidente Cristina Kirchner ameaçou determinar importação de erva-mate caso preços não voltem ao normal

O governo argentino ameaça fechar armazéns e supermercados que venderem erva para chimarrão acima do preço tabelado.

O alerta foi feito pelo ministro da Agricultura, Norberto Yauhar, em meio à alta nos preços e à escassez do produto nas prateleiras do país.

"O governo vai fechar todo o comércio que seja necessário, porque o que estão cobrando por um pacote de erva mate é delinquente", disse o ministro.

O pacote de um quilo da erva-mate chegou a dobrar em alguns supermercados, passando de cerca de 10 pesos (cerca de R$ 4,80) para até 20 pesos, entre março e abril deste ano, segundo produtores e comerciantes do setor.

O governo habilitou, nesta terça-feira, um número de telefone 0800 para o registro das queixas contra o abuso nos preços do produto, que é essencial no cardápio dos argentinos e faz parte da cesta básica de alimentos do país.

Ameaça

Na semana passada, a presidente Cristina Kirchner ameaçou determinar a importação da erva-mate caso os preços da mercadoria não voltem aos trilhos.

Analistas econômicos afirmam que a alta nos preços e a escassez do produto podem ser efeito do controle de preços determinado pelo governo.

O gerente da Federação de Moinhos de Erva, Julio Elmel Blanco, disse à BBC Brasil que a "distorção nos preços" passou a ser observada este ano depois que o governo teria atendido pedido de aumento pedido pelos produtores.

"O governo autorizou o aumento para os produtores, que aumentaram sua rentabilidade, mas a medida acabou distorcendo os preços de toda a cadeia de produção e de comercialização da erva mate no país", disse Blanco.

Os moinhos integram a segunda etapa de uma rede de produção que inclui o cultivo, o processamento da erva e a industrialização, com os adereços finais e o empacotamento da mercadoria entregue ao comércio.

Preços

Blanco lembrou que desde 2002 (antes do governo Kirchner), o preço da erva-mate vinha sendo analisado e atualizado duas vezes por ano.

Até o ano passado, estes ajustes eram em centavos.

Em março de 2002, por exemplo, recordou, o preço do quilo da erva era de 13,50 centavos – do produtor para a indústria e antes de chegar ao comércio. No ano passado, esse preço foi de 90 centavos.

Mas o grande salto foi registrado entre março e abril deste ano, quando o governo autorizou o aumento no preço da erva que, então, passou para 1,70 peso, de acordo com a Federação de Moinhos.

O governo também dobrou o preço da erva processada, que passou para quase sete pesos.

"Entre março e abril deste ano, o preço do produto (puro) subiu 89%, e o resultado é que na elaboração, na industrialização, o preço subiu também", disse.

Na semana passada, após queixas dos consumidores – diante das câmeras de televisão –, o governo e os comerciantes chegaram a um acordo, e o preço ao consumidor foi acordado em entre 14 pesos e 18 pesos o quilo, dependendo da marca e da qualidade do produto.

Na segunda-feira, porém, em um supermercado do bairro nobre da Recoleta, os preços não obedeciam as margens fixadas pelo governo.

Controle

O controle de preços é determinado pelo governo em setores da alimentação, dos transportes públicos e de outros serviços básicos – cujos preços variam de acordo com a região do país e com a participação ou não de subsídios do governo entregues às empresas privadas do setor.

Para economistas, o que chamam de "interferência do governo na economia" tem provocado "distorções".

"Os subsídios do governo para as empresas foram decisivos para manter as tarifas públicas congeladas e para estimular o consumo. Foi uma medida que teve efeito positivo após a histórica crise que vivemos em 2001. Mas agora a maior interferência está afetando o desempenho da economia", disse Marcelo Elizondo, da consultoria econômica DNI.

Na semana passada, críticos do governo observaram que o anuncio da expropriação da petroleira YPF faz parte desta maior presença do governo na economia, que indica ser mais marcada neste início de segundo mandato da presidente Cristina Kirchner.

Segundo consultorias privadas, a inflação na Argentina estaria em torno de 20% a 25% ao ano. Para o governo, o indicador seria de 10%.

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