Acadêmicos dizem ter identificado co-autor de peça de Shakespeare

Fac-símile da primeira edição de 'Tudo Vai Bem Quando Termina Bem, de 1623 Direito de imagem Wikimedia Commons
Image caption Peça teria diferenças de estilo bem claras, que indicariam presença de segundo autor

A peça Tudo Vai Bem Quando Termina Bem, cuja autoria vinha sendo atribuída a William Shakespeare, teria na verdade um co-autor, segundo acadêmicos da Universidade de Oxford.

O provável parceiro literário de Shakespeare seria o dramaturgo Thomas Middleton, contemporâneo do autor de Hamlet e Macbeth e que, assim como ele, assinou várias peças de diferentes estilos. Os acadêmicos chegaram à essa conclusão analisando o vocabulário, as rimas, o estilo e a gramática do texto.

De acordo com a professora Laurie Maguire, a descoberta sinalizaria que Shakespeare teria contado não apenas com um, mas com outros colaboradores. ''O retrato que está surgindo é de que havia muito mais colaboração do que se pensava. É como se fosse um estúdio de cinema, com uma equipe de escritores'', afirma.

Na opinião dos acadêmicos, a possível parceria entre Shakespeare e Middleton seria o motivo pelo qual haveria diferenças de estilo e inconsistências no texto de Tudo Vai Bem Quando Termina Bem, publicado pela primeira vez em 1623.

Image caption Peça recebeu várias adaptações, como esta da BBC, para o rádio, de 1952

A professora Maguire diz que a maior parte das peças escritas na época tinham mais de um autor, mas que o status icônico de Shakespeare faz com que muitos tivessem resistência à ideia de que o lendário dramaturgo possa ter contado com parceiros artísticos.

Ela afirma estar ''muito confiante'' de que há ''uma segunda mão'' na autoria da peça e que a pesquisa, realizada por ela e por Emma Smith, ambas professoras da faculdade de Inglês da Universidade de Oxford, indicaria que o mais provável colaborador de Shakespeare seria Middleton.

Uma possível prova disso seria o uso de um termo incomum, ''ruttish'' (lascivo ou libidinoso), que consta da peça. Na mesma época, o termo também surgiu em uma obra de Middleton.

As peculiares instruções para os atores também estão mais próximas do estilo de Middleton do que do de Shakespeare, afirmam as autoras em seu estudo.

Não é possível se chegar a uma conclusão definitiva neste tipo de pesquisa literária detetivesca - e as próprias acadêmicas afirmam que há outros possíveis candidatos a parceiros de Shakespare, como John Fletcher - mas Laurie Maguire afirma que a peça oferece uma ''impressionante'' coincidência de estilos com Middleton.

Middleton só foi se tornar um autor conceituado vários anos após sua morte. Ele é conhecido por ter abraçado diversos estilos, em peças como A Criança Trocada e A Rapariga Turbulenta. Ele era um londrino, mais jovem do que Shakespeare, o que, segundo Laurie Maguire, explica o uso de uma linguagem mais moderna no texto de Tudo Vai Bem Quando Termina Bem.

A co-autora do estudo, Emma Smith, diz que a colaboração entre os dois teria se dado em 1607, e a comparou à de um músico consagrado atuando ao lado de um artista em ascensão.

A autoria das peças atribuídas a Shakespeare vem sendo, há muito, tema de especulações. Laurie Maguire diz que nenhum acadêmico sério duvida que Shakespeare seja de fato autor dos textos atribuídos a ele. Mas sua pesquisa sugere que haveria uma cultura de colaboração na dramaturgia da época muito maior do que se imaginava.

Muitas peças eram escritas com rapidez e eram voltadas para o grande público, afirma a pesquisadora. Muitas vezes havia grupos de escritores que se associavam para produzir uma peça.

Alguns autores dentro dessas esquipes se especializavam em criar determinados tipos de personagem, enquanto outros eram bons em criar tramas.

Laurie Maguire diz que a reverência cultural por Shakespeare - a chamada bardolatria - ajudou a firmar a ideia de que o dramaturgo era um gênio criativo, que produzia suas peças isoladamente.

Mas apesar de acreditar que Shakespeare teria criado sozinho a maior parte de suas obras, todos os elementos em Tudo Vai Bem Quando Termina Bem sugerem a presença de um co-autor, tanto assim, afirma, que em determinadas passagens parece que um autor passou o texto para o outro.

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