Momentos olímpicos: Prata de 1984 foi divisor de águas do vôlei, diz Bernard

Bernard
Image caption Bernard foi medalha de prata em Los Angeles 1984 e hoje chefia delegação brasileira em Londres 2012

A medalha de prata conquistada pela equipe masculina de vôlei nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1984, foi um "divisor de águas" na prática do esporte nacional, na avaliação de uma das estrelas daquela equipe, Bernard Rajzman.

A prata – obtida após uma derrota por 3 sets a 0 para os Estados Unidos, donos da casa – foi a primeira medalha olímpica do voleibol brasileiro. Até os anos 80, o Brasil não tinha tradição no esporte. Mas desde Los Angeles, seleções masculinas ou femininas de vôlei subiram no pódio olímpico em todos os anos, com exceção de 1988.

"Foi um divisor de águas. Na verdade foi a primeira vez que uma equipe de voleibol trouxe uma medalha. Foi uma geração que de fato foi a precursora do vôlei no nosso país", disse à BBC Brasil Bernard, que ficou famoso por criar o saque "Jornada nas Estrelas".

O ex-atleta carioca, que será o chefe da delegação do Brasil nos Jogos de Londres 2012, fez parte da "geração de prata" ao lado de astros do esporte como William, Fernandão, Renan, Amauri, Montanaro, Xandó e Badá, e do técnico Bebeto de Freitas.

Preconceito

Bernard já havia participado das Olimpíadas de Montreal, em 1976, onde o Brasil ficou em sétimo lugar, e em Moscou, em 1980, onde o país foi quinto colocado. Para o ex-atleta, a conquista da prata olímpica em 1984 mudou a percepção que os torcedores brasileiros têm do esporte

"Eu me recordo que quando garoto não se sabia se vôlei era jogado com cesta, se era só para mulher, se era esporte para homossexual - até preconceito existia", afirma.

"Mas até hoje o esporte se perpetuou. O voleibol hoje está até acima das questões de ordem esportiva. Ele extrapola o campo do esporte e é um símbolo de auto-estima do povo brasileiro. A gente costuma dizer no Brasil: futebol é religião. Voleibol é o nosso primeiro esporte."

Apesar da pouca tradição no esporte antes dos anos 1980, o time do Brasil que chegou aos jogos de Los Angeles já tinha uma reputação internacional. Os jogadores já atuavam juntos havia vários anos e haviam conquistado um Mundialito, no Rio de Janeiro, e um vice-campeonato mundial, na Argentina, ambos em 1982.

Em 1984, o Brasil era um dos favoritos para levar até mesmo o ouro olímpico – já que além da força da equipe brasileira, as potências esportivas Cuba e União Soviética boicotaram os Jogos nos Estados Unidos.

O Brasil começou sua campanha vencendo Argentina e Tunísia, mas perdeu a terceira partida para a Coreia do Sul. Em jogo que valia vaga na semi-final, o Brasil derrotou os Estados Unidos por 3 sets a 0. O Brasil superou a Itália por 3 sets a 1 e fez a final contra os Estados Unidos, que devolveram o 3 a 0 da primeira fase.

Limitações físicas

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Image caption Para Bernard, sua geração abriu espaço para o sucesso internacional do vôlei brasileiro

Bernard diz que a seleção brasileira tinha limitações, mas ele afirma que todos trabalhavam juntos para superar todas as adversidades.

"Existiam limitações de ordem física, como atletas mais baixos. Eu, por exemplo, tinha 1m87 e já era considerado um anão. Hoje, então, sou considerado muito menor do que anão. Diante dessas limitações, a gente dizia: quem não tem cão, caça com gato. E fomos no tranco e conseguimos chegar a uma medalha que poderia até ter sido de ouro, mas infelizmente não aconteceu", afirma.

Para o ex-jogador brasileiro, o sucesso da geração de prata foi construído com muita dificuldade ao longo de toda a década, e esse trabalho serviu para inspirar gerações futuras que foram ainda mais vitoriosas no Brasil.

"A medalha de prata foi construída por uma geração que ficou junta por quase quinze anos, trabalhando, treinando, se dedicando. Abriu mão de família, de estudos, de trabalho, para se dedicar a um projeto de vida que a gente apostava que pudesse dar certo", diz Bernard.

"Mas em 1992 em Barcelona, com grande galhardia, de uma geração que não se esperava muito, surgiu o ouro como uma bomba, que nos deu uma satisfação muito grande como desportista."

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