Lembranças de bate-papos com Ivan Lessa

Bruno Garcez, ao lado de Thomas Pappon, Daniel Gallas e Ivan Lessa Direito de imagem BBC World Service
Image caption Jornalistas da BBC Brasil tiveram a chance de conviver com Ivan Lessa em Londres

Ivan Lessa era um prosador nato, bom de lábia, farto em tiradas, dotado de um humor ferino, cáustico. A mesa de almoço com ele se transformava em um palco, em que ele era o protagonista. Os temas iam desde episódios de Os Simpsons até canções de Billy Eckstine ou filmes de Michael Powell.

Além de contar "causos", Ivan nos divertia tecendo loas aos artistas que admirava e descendo lenha nos que desprezava. Não bastasse isso, gostava de fazer vozes e imitar personagens reais ou imaginários. Dávamos risadas, às vezes, gargalhadas.

Todos conheciam os textos do Ivan ou as crônicas que ele lia no rádio, mas boa parte de nossos ouvintes e leitores não conhecia o personagem Ivan Lessa como nós, da BBC Brasil, conhecíamos.

Sua irreverência e ironia já estavam estampadas nos textos, mas nada melhor do que dar uma amostra do verdadeiro Ivan para os ouvintes.

Sendo assim, pensaram meus editores, por que a gente não grava um bate-papo com o Ivan e transforma essas conversas com ele em uma atração semanal? A ideia era boa e de simples execução.

Foi assim que, em 2003, coube a mim a sorte de ter sido o primeiro a participar desses bate-papos com o Ivan. As conversas podiam chegar até a durar meia hora, mas a versão que chegava às ondas do rádio era bem mais enxuta - de, no máximo, uns cinco minutos. Editar podia ser uma tarefa árdua.

Ivan gostava de falar e, no fluxo de consciência que ele produzia, nem sempre era fácil achar pontos de cortes. Às vezes, dava dó de ter de deixar de fora parte do deboche, das diatribes e das frases certeiras dele. Mas preservávamos o essencial.

Os temas, assim como nos almoços protagonizados por ele, eram os mais variados. Falávamos sobre os já mencionados Simpsons, de quem Ivan era um fã ardoroso, a célebre entrevista de Michael Jackson com Martin Bashir, a briga entre os escritores Martin Amis e Ian McEwan.

Não nos limitávamos a conversar. Os bate-papos eram entremeados por músicas que Ivan gostava ou sobre as quais falaria naquela edição do programa. Sinatra não poderia faltar e compareceu em mais de uma ocasião. Mas também estiveram presentes o já citado Billy Eckstine, a quem Ivan se orgulhava de ter entrevistado, e muitos outros.

Era como um papo de botequim, mas sem cerveja ou tira-gostos. Mas não faltavam risadas. O tom improvisado era tão grande que, em princípio, nem sabíamos que nome dar a essa atração. Mas, fiéis ao caráter espontâneo da coisa, optamos por um mero Papo com Ivan, que já dizia tudo.

Depois de mim, vários outros produtores da BBC Brasil passaram pela funcão de interlocutor do Ivan. Todos nós compartilhamos as risadas e conhecimentos que adquirimos graças a esse convívio.

Ivan tinha suas idiossincrasias e torcia o nariz para muitas coisas, em particular para a música mais recente. Eu me recordo bem da alegria de um colega Eric Camara após ter apresentado a Ivan um disco de Elvis Costello em que o cantor e compositor britânico interpreta standards da música americana.

Marotamante, meu colega não revelou quem era e muito menos que se tratava de um artista atual. Mas relatou que Ivan curtiu o que ouviu. Depois, fiel ao estilo, quando questionamos Ivan sobre Elvis Costello, ele desconversou e agiu como se não lembrasse do incidente. Era a birra característica do Ivan - ele não gostava de dar o braço a torcer.

Ivan nos apresentava tantas coisas boas que a gente se sentia feliz quando conseguia retribuir de alguma forma. Por isso, entendo bem a alegria de meu colega, pois tive eu próprio experiência semelhante, quando presenteei Ivan com uma cópia de Macho Não Ganha Flor, de Dalton Trevisan - o recluso escritor curitibano, de quem Ivan era amigo e com quem chegou a trocar cartas, na época em que ele, Ivan, editava o Pasquim.

Ele enviou um email de agradecimento carinhoso e expressou a alegria de estar lendo um novo Dalton após tantos anos.

Agora, enquanto escrevo este texto, eu me recordo de outro cantor que vim a conhecer melhor graças a Ivan, Johnny Hartman. Por isso, escolhi a bela voz do crooner dos anos 50 e 60 para ajudar na inspiração. Acho que Ivan aprovaria a escolha.

É pena que o bate-papo que se seguiria a estas canções não é mais possível. Mas fica a recordação daquelas animadas conversas semanais.

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