Violência sectária ameaça complicar conflito sírio

Casa destruída em Qubair (Foto BBC)
Image caption Destroços de residência em Qubair: ofensiva militar estilo "terra arrasada"

Um massacre ocorrido na aldeia de Qubair sugere um aumento no risco de que uma onda de violência sectária seja desatada em meio ao conflito sírio.

O chefe do escritório da BBC no Oriente Médio, Paul Danahar, esteve em Qubair com observadores da ONU e encontrou indícios preocupantes nesse sentido, além de um cenário de destruição.

"Podia sentir o cheiro da carne queimada mesmo antes de chegar às janelas para olhar dentro das casas", relata Danahar. "Vi um pequeno pedaço de cérebro cair de uma toalha ensanguentada que era sacudida por um homem à minha frente."

Segundo Danahar, combatentes entraram em Qubair na manhã de quarta-feira com a intenção de matar tudo que se movia.

"Massacrar as famílias desta pequena comunidade muçulmana sunita não foi suficiente para saciar sua sede de sangue", afirma Danahar. "Até os animais foram mortos e suas carcaças deixadas apodrecendo sob o sol do verão."

Acusações

Os corpos das vítimas foram removidos, o que para Danahar sugere uma tentativa de ocultar a verdade.

Um homem encontrado pelos observadores da ONU em Qubair acusou pelo massacre alauitas do vilarejo vizinho - a mesma corrente do Islã seguida pela elite da Síria, incluindo o presidente Bashar al-Assad.

Segundo a testemunha, esses vizinhos cobiçavam as terras de Qubair e teriam feito uma ofensiva no estilo "terra arrasada" na aldeia com a ajuda de tropas oficiais.

O Exército, porém, alegou ter chegado à área após o ataque com o objetivo de perseguir os "terroristas" responsáveis.

"Terroristas" é a palavra usada por autoridades sírias para se referir a membros da oposição armada ao regime.

Sem controle

O momento do ataque, justo quando Kofi Annan apresentava à ONU seu relatório sobre a Síria, não poderia ter sido pior para o regime do país.

Segundo Danahar, isso parece indicar que alguma das milícias supostamente criadas pelo governo sírio poderia ter escapado a seu controle, deixado ao Exército a tarefa de "limpar" a cena do crime em Qubair antes que ela fosse descoberta pela comunidade internacional.

"O massacre de Qubair é sintomático dos problemas que o Exército sírio tem enfrentado ao tentar sufocar a revolução que varre o país", diz Danahar.

O correspondente da BBC explica que, como as forças de elite não podem estar em todos os lugares ao mesmo tempo para sufocar as revoltas assim que elas aparecem, vagueiam de uma localidade a outra.

Quando elas saem de uma área, o vácuo de poder é preenchido por forças de oposição ou milícias locais.

Comunidades divididas

Nos centros urbanos do país, há muita convivência entre pessoas de religião e etnias diferentes. Nas áreas rurais mais afastadas, porém, as comunidades vivem isoladas umas das outras.

Uma aldeia pode ser cristã, a outra xiita e a próxima sunita ou alauita. Nessas comunidades, uma pergunta crucial é: "De que lado você está?"

Recentemente, outro conflito sectário de uma brutalidade selvagem ocorreu em Houla.

"E a violência não vai terminar", afirma Danahar. "Logo estaremos lendo sobre mais mortes de sírios nas mãos de pessoas que os odeiam somente por causa de sua religião. Isso poderia levar a uma guerra que estaria fora do controle de qualquer um - e os livros de história se lembrariam de Qubair como o marco da escalada do conflito."

De acordo com o correspondente da BBC, a equipe da ONU na Síria tem desafiado os limites do razoável em termos de sua segurança pessoal para documentar "o lento escorregar do país em direção à guerra civil".

Ela estava tentando entrar em Qubair desde a quinta-feira. Na ocasião, observadores foram parados em postos de controle militar e barreiras montadas por moradores da região. Dois tiros atingiram seus veículos.

Notícias relacionadas