Egito ainda não recuperou dinheiro roubado na era Mubarak

Protesto no Cairo/AP Direito de imagem AP
Image caption Muitos dos manifestantes temem que mudanças exigidas tenham sido esquecidas

Nenhum centavo do dinheiro que se supõe que tenha sido obtido ilegalmente durante o governo de Hosni Mubarak foi recuperado pelas autoridades egípcias responsáveis por rastrear esses fundos.

Elas buscam recuperar US$ 8,3 bilhões (cerca de R$ 17 bilhões) dentro do país e pelo menos US$ 11 bilhões (R$ 22,6 bilhões) no exterior, com a ajuda de especialistas internacionais, governos e até mesmo detetives particulares.

É missão dos advogados que trabalham na Autoridade Egípcia de Ganhos Ilícitos investigar evidências de corrupção de integrantes do governo e seus familiares.

A pequena agência, considerada de pouca importância durante o antigo regime, cresceu muito em relevância – e em termos de expectativas da população - desde a queda de Mubarak, mas seus agentes reclamam do pouco progresso obtido junto a outros países.

Cerca de US$ 132 milhões (R$ 271,8 milhões) permanecem congelados na Grã-Bretanha, um dos cerca de 12 países que podem ter servido de depositários de dinheiro ilícito egípcio.

De uma viagem a Londres em maio, representantes da agência trouxeram apenas promessas de colaboração. O governo britânico diz não discutir casos individuais em público e que continua trabalhando junto às autoridades egípcias.

Mas especialistas em recuperação de ativos dizem que a dificuldade egípcia não é surpresa e que a falta de empenho de governos em agilizar o processo é, infelizmente, a regra.

"É tentador imaginar que há algum motivo oculto, seja político ou comercial, porém é mais falta de vontade mesmo", diz Jeremy Carver, da ONG Transparência Internacional, que vem fornecendo treinamento para advogados e ativistas egípcios.

Outros casos

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Image caption Ghali foi condenado à revelia no ano passado e vive em Londres

Os representantes egípcios se disseram ainda mais decepcionados com a recusa britânica em discutir a extradição do ex-ministro das Finanças Youssef Boutros Ghali, condenado à revelia no ano passado a 30 anos de prisão.

O Ministério das Relações Exteriores britânico disse à BBC que, como o país não tem relações de extradição com o Egito, o Ministério do Interior teria de tomar medidas especiais antes que qualquer ação possa ser tomada no caso de Boutros Ghali.

A agência foi responsável por novas acusações contra os filhos do ex-presidente, Gamal Mubarak e Alaa, por terem obtido informações privilegiadas no mercado de ações do país.

"O ex-presidente Mubarak, seus dois filhos e suas esposas são objeto de uma das maiores investigações da autoridade", diz Ahmed Saad, porta-voz da agência.

Frustração

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Image caption Calcula-se que o antigo regime trenha desviado bilhões de libras egípcias

Apesar dos esforços das autoridades do novo governo, dentro do Egito há uma sensação geral de que as reformas exigidas pelas revoltas populares do ano passado estão sendo esquecidas, ou não estão acontecendo na velocidade esperada.

"Não é que estamos em busca de vingança, mas de justiça", diz o ativista Omar Hussein.

"Nós estabelecemos as normas para um novo país, um novo regime, com a lei sendo o poder supremo, mas isso não está acontecendo", completa.

Apesar de Mubarak não ter sido ostensivamente corrupto como alguns de seus pares no mundo árabe, o nepotismo e desvio de fundos públicos e de propriedade tornou-se comum durante seus 30 anos no poder.

No ano passado, muitos ex-ministros e grandes empresários do partido dissolvido foram condenados.

Por isso muitos estão agora atrás das grades na prisão Tora, no Cairo. Quando Mubarak foi levado para lá este mês, nas ruas da capita egípcia tornou-se comum a piada de que o antigo governo já poderia realizar uma reunião no local.

* Com informações de Yolande Knell, da BBC News no Cairo

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