Primeiro dia de votação no Egito é marcado por menor entusiasmo

Mulher egípcia deposita voto em urna no Cairo (Getty) Direito de imagem BBC World Service
Image caption Eleição foi marcada por decisão polêmica da Suprema Corte

O Egito encerrou na noite deste sábado o primeiro dos dois dias de votação do segundo turno da primeira eleição presidencial livre do país.

A votação se estendeu até as 21h e, segundo correspondentes, o entusiasmo é menor neste segundo turno do que nas outras votações realizadas no Egito desde a queda do líder Hosni Mubarak.

Logo pela manhã, foram vistas algumas filas em zonas eleitorais do Cairo. No entanto, mais tarde, estas filas foram reduzidas em alguns locais para apenas um fluxo pequeno porém constante de eleitores, segundo o correspondente da BBC no Cairo Jon Leyne.

Outro fato notado pelo correspondente foi a ausência de jovens eleitores neste primeiro dia de votação.

De acordo com Leyne, estes jovens parecem estar decepcionados com as opções, entre Ahmed Shafiq, o ex-primeiro-ministro de Hosni Mubarak, e Mohammed Mursi, líder da Irmandade Muçulmana.

A televisão estatal do Egito pediu o comparecimento dos eleitores, mas alguns ativistas distribuíram panfletos em várias estações do metrô do Cairo pedindo o boicote à votação.

Violações eleitorais

Os responsáveis pela campanha de Mohammed Mursi deram uma entrevista coletiva na tarde de sábado relatando várias violações eleitorais durante a votação e pedindo que os eleitores denunciassem incidentes.

A Irmandade Muçulmana também pediu que os eleitores "isolem" Ahmed Shafiq, a quem chamam de "o representante do antigo regime". Shafiq, por sua vez, prometeu que vai restaurar a estabilidade do Egito.

Mohammed Mursi foi o candidato mais votado no primeiro turno, tendo conquistado 24,8% dos votos, contra 23,7% dados a Shafiq.

Um total de 52 milhões de eleitores estavam aptos a votar, mas o índice de comparecimento às urnas foi de apenas 46%.

A segurança para a votação foi reforçada e um total de 400 mil soldados e policiais foram mobilizados nas ruas do país.

A divulgação oficial dos resultados pela Comissão Eleitoral Presidencial deve ser feita no dia 21 de junho.

Mas acredita-se que o nome do vencedor será divulgado bem antes. Os resultados parciais da votação do primeiro turno se deram em 24 horas.

O Supremo Conselho das Forças Armadas, que assumiu o controle do país após Mubarak ter deixado a presidência, se comprometeu a entregar o posto ao vencedor até o dia 30 de junho.

Eleição inválida

O entusiasmo em torno do pleito foi abalado por uma decisão da Suprema Corte do Egito divulgada na quinta-feira que invalidou a primeira eleição parlamentar livre no país em mais de seis décadas. Os juízes da Suprema Corte foram todos indicados por Mubarak durante o regime do ex-líder.

De acordo com a corte, o pleito parlamentar, realizado em duas fases, em novembro de 2011 e em fevereiro deste ano, teria sido inconstitucional porque representantes de partidos puderam competir por assentos no Parlamento destinados a candidatos independentes.

Representantes da oposição no Egito afirmaram que a decisão da Suprema Corte representa um golpe. A Irmandade Muçulmana afirmou que a medida foi um golpe contra a democracia e pediu que os egípcios protejam a revolução.

A eleição parlamentar teve como grandes vencedores os partidos islâmicos. O Partido Justiça e Liberdade, ligado à Irmandade Muçulmana, de Mohamed Mursi, foi o grande vencedor, tendo conquistado 100 dos 235 assentos. Os islâmicos fundamentalistas salafistas do Partido Nour também obtiveram uma votação expressiva e foram o segundo bloco que mais elegeu candidatos.

A Suprema Corte também julgou inconstitucional a lei aprovada pelo Parlamento que proíbe ex-representantes do alto escalão do governo Mubarak de se candidatr a cargos públicos por dez anos.

A lei, que foi aprovada pelo Parlamento no início deste ano, proibiria Ahmed Shafiq de participar da disputa.

Há temores de que os líderes militares do Egito possam ainda dissolver o Parlamento, o que faria com que o vencedor da votação deste final de semana possa tomar posse em um Egito desprovido de um Legislativo que possa fiscalizar e cobrar do futuro líder do país.

Uma assembleia formada por cem integrantes e apontada por parlamentares no início deste ano para elaborar a nova Constituição do país também poderá vir a ser dissolvida.

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