Para FMI, maior risco para economia dos EUA é a sua política

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Image caption Diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, diz<br>que entidade ainda tem "otimismo" com EUA

Qualquer analista político dos Estados Unidos sabe dizer, apelando para a célebre frase, onde está a prioridade número um na cabeça dos americanos: "a economia, estúpido".

Mas nesta terça-feira o FMI (Fundo Monetário Internacional) sugeriu que o buraco da economia do país se situa ainda mais embaixo, nas negociações que terão de ser realizadas no Congresso para evitar o chamado "abismo fiscal".

O termo se refere à entrada automática em vigor de uma série de cortes de gastos e o fim de isenções fiscais que se aplicariam já a partir de janeiro, se o legislativo não chegar a um plano para aplicá-las gradativamente, transformando o precipício em uma descida em plano menos inclinado.

As divisões partidárias dentro do Congresso reacendem as lembranças das difíceis negociações que ocorreram em julho do ano passado, quando divergências em torno da elevação do teto da dívida pública americana quase levaram o país a um calote.

Um acordo acabou sendo fechado na última hora, mas o impasse levou a agência de avaliação de risco Standard & Poor’s a rebaixar a nota dos Estados Unidos, provocando tensão nos mercados mundiais.

Ameaça

O Fundo já rebaixou de 2,4% para 2,3% a sua previsão de crescimento para a economia dos EUA no ano que vem – mudança leve, mas feita no intervalo de menos de três meses.

A diretora-geral da organização, Christine Lagarde, alertou que se nada for feito para aplainar o abismo fiscal, o crescimento americano no ano que vem será ainda menor, "bem abaixo de 1%".

"A ameaça, só a ameaça em se demorar a elevar o teto da divida e afastar o abismo fiscal podem enfraquecer o crescimento já no fim deste ano. E se se materializar, na eventualidade de um acordo não ser alcançado, os efeitos para a economia seriam severos, com contágios negativos para o resto do mundo", disse Lagarde em entrevista coletiva em Washington.

A proposta de orçamento feita em fevereiro pelo presidente Barack Obama prevê uma redução do déficit público equivalente a 3 pontos percentuais do PIB, passando de 8,5% para 5,5% do PIB.

Mas para os 12 economistas do Fundo que elaboraram o relatório anual dos EUA, mesmo esta pequena redução pode ser rápida demais. Para eles, os EUA deveriam mirar em uma consolidação fiscal mais "sustentável" e no "médio prazo".

"O ritmo de ajuste recomendado seria consistente com um deficit de cerca de 6,5% do PIB para 2013", avaliou o relatório. Para Lagarde, "a consolidação fiscal é necessária, mas ela precisa ser sensata, e certamente não ser excessiva."

Contágio

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Image caption Em relatório, FMI rebaixou previsão de crescimento da economia americana para o próximo ano

Por ora, Lagarde disse que o FMI continua "no terreno do otimismo" em relação à economia americana. Segundo as novas estimativas, a maior economia do planeta crescerá 2% em 2012, um pouco abaixo da previsão de 2,1% divulgada em abril. Lagarde qualificou este crescimento de "morno".

O maior risco neste momento é a crise na zona do euro, que pode afetar os EUA tanto pela via comercial quanto por uma desvalorização dos ativos financeiros e queda na confiança.

O efeito comercial seria na verdade um duplo efeito: reduziria a queda na demanda por exportações americanas na Europa (que responde por 15% das exportações dos EUA) e levaria à apreciação do dólar, o que encareceria os produtos americanos.

Mas a chefe do FMI ponderou que a crise na zona do euro está sendo tratada pelas medidas de maior integração bancária, fiscal e política que têm recebido o aval das instâncias políticas da União Europeia.

Além disso, o Fundo considera que a política monetária americana está "apropriadamente" frouxa e com "espaço para maior afrouxamento se o panorada se deteriorar".

Países emergentes, como o Brasil, se queixam de que o afrouxamento da política americana tem gerado capital especulativo para as suas economias em melhor forma.

Sobre esse tema, Lagarde disse que, embora hoje em dia o Fundo considere "legítimas" algumas medidas de controle de capital, nunca chegou a observar uma relação entre afrouxamento monetário e aumento de capital especulativo para os países emergentes.

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