Lucas Mendes: A rainha da zona

Atualizado em  5 de julho, 2012 - 08:47 (Brasília) 11:47 GMT

Onde você estiver em Nova York, do bairro mais pobre ao mais rico, você esta na zona da Amanda.

No começo da década de 60, ela era tão bonita e bem vestida que tomou de Jacqueline Kennedy o lugar de mulher mais elegante do mundo.

E bem nascida. Tem um pedigree do cão. O pai era herdeiro da Standard Oil. A mãe era personagem de Truman Capote. A madrasta era filha de Averell Harriman, herdeiro de empresas ferroviárias e embaixador americano na União Soviética, e o padrasto era William S. Paley, criador da rede CBS, o Roberto Marinho dos 60 e 70 nos Estados Unidos.

Tem mais. Casou-se pela primeira vez com Carter Burden, multimilionário descendente do Comodoro Vanderbilt, homem dos navios e das ferroviárias e assessor de Robert Kennedy.

O segundo casamento foi com Steven Ross, presidente da Warner Communications, que foi patrão de Pelé no Cosmos e é vizinho nos Hamptons. É difícil encontrar um DNA nos Estados Unidos com tanta história e cifrões, mas em 2010 o patrimônio dela era de apenas US$ 13 milhões.

O primeiro emprego desta aristocrata americana foi como professora assistente no Harlem. Na faculdade, estudou comportamento animal e se apaixonou por pássaros.

Durante uma entrevista no restaurante Odeon, onde costuma almoçar, uma jornalista cobrou dela o conhecimento sobre passarinhos. Ela deu uma lição sobre as mais de 300 variedades que passam pelo Central Park e surpreendeu os vizinhos de mesa com um sonoro "pi pi pi piii". Imitou vários pássaros: "Não moram aqui. Nova York é só uma escala para canto e descanso. Fazem seus ninhos no Canadá e passam o inverno na América do Sul".

Anos depois, voltou para a faculdade e fez um mestrado na Columbia sobre urbanismo, com uma premiada tese sobre reciclagem de lixo. Faltou dizer que, aos 67 anos, chama atenção pelo corpo e pelo rosto. Linda e, como diz o Times, "impossivelmente magra". Fenômeno novaiorquino que não passou despercebido pelos ricos, políticos e poderosos.

Depois do divórcio de Steven Ross, circulou pala cidade com os senadores Ted Kennedy, Chistopher Dodd e o colega jornalista Charlie Rose, um dos melhores entrevistadores da televisão americana com quem tem uma relação romântica antiga e intermitente.

A guinada definitiva de socialite para trabalhadora foi inspirada pelo urbanista William "Holy" White, especialista em descobrir espaços mal utilizados nas cidades. Ela batia perna pela cidade com ele e até hoje não só caminha como pedala e fotografa Nova York e outras cidades do mundo.

Em 1990, ela foi nomeada para a Comissão de Planejamento Urbano, se tornando uma espécie de subsecretária, na época, com mais charme do que poder. Foi o prefeito Bloomberg que deu a ela superpoderes a partir de 2002.

Nem Batman, Super-Homem, Homem-Aranha, quem mais?, enfim, nenhum teria mais impacto do que Amanda Burden tem. Não foi na base da fantasia nem da maquiagem.

Com o poder de mudar o zoneamento, ela fez e aconteceu em 8.400 quarteirões dos cinco bairros, e nos próximos 18 meses vai rezonear partes pobres e nobres de Manhattan, como o lado leste da ilha, entre as ruas 40 e 57.

A avenida Park e a estação Grand Central estão no alvo. Em 10 anos anos, ela mudou a cidade mais do que nos últimos 100 e, se você acredita nos jornais, ela é a pessoa mais poderosa de Nova York depois do prefeito Bloomberg.

Eu acho que a líder da Comissão e provável futura prefeita tem mais poderes, mas não vale a pena entrar neste debate.

O sucesso mais conhecido pelos turistas é a linha do antigo trem elevado, o Highline, transformado num parque suspenso, copiado de um projeto parisiense.

Deu uma injeção de US$ 2 bilhões no bairro de Chelsea e gerou 12 mil empregos. Rezoneou Coney Island, grandes partes do Brooklyn e do Bronx, mas entre as áreas favoritas dela em NY não há nenhuma conhecida atração turística.

Gosta de uma rua de antiguidades no Bronx, da Governors Island, de um mercado de pulgas em Williamsburg, no Brooklyn, do Luna Park em Coney Island.

Amanda mexeu e vai mexer com as altura dos prédios, a largura das calçadas, plantas e desenhos dos parques e áreas à beira d’água que eram pobres e decadentes e hoje são modelos de vitalidade.

Com o guru urbanista, ela aprendeu que a força das cidades está nas ruas, nas relações entre o prédio e os moradores, nas calçadas e onde o concreto encontra o céu.

Amanda discute os tintins com as construtoras e arquitetos. A posição dos bancos com relação ao sol, o número de degraus de escadas num parque - não devem passar de cinco. "Ela é um pé no saco", dizem os críticos, que acusam Amanda de limitar a criatividade dos construtores quando mantém os padrões estéticos da vizinhança e limites de altura.

Também é acusada de autorizar mudanças que expulsam os pobres dos bairros rezoneados, mas o plano de habitação do prefeito promovido por ela cria 160 mil moradias para inquilinos de baixa renda.

Nova York, eu digo, está cada vez melhor. Viva a rainha da zona!

Tive com ela uma curta, preciosa e humilhante conexão. Estava na fazenda de um amigo, a duas horas de Nova York, três da tarde, segunda-feira, verãozão, nenhum movimento, nem na estrada ou nas folhas das árvores.

Armei o fogo para uma carne, abri as portas do carro e deixei o som sair pelos dez alto-falantes.

Atravessava uma fase de ópera que, felizmente ou infelizmente, passou. A soprano estava no último furo quando apareceu uma mulher linda, descalça, enrolada numa toalha. Fiquei sem reação, na cadeira, com o copo na mão. Ela examinava o cenário e também não dizia nada. Finalmente saiu – um "Olá, tudo bem? Você quer um copo d’água? Café? Precisa de alguma coisa?".

"Não", ela respondeu. "Sou Amanda. Vizinha de frente. Só queria saber de onde vinha esta música tão linda."

Além de rainha da zona, é um modelo de boas maneiras. Nunca fui chamado de cafajeste de forma tão educada. Pedi mil desculpas e, apesar dos protestos dela, falsos, silenciei a soprano.

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