Por que Peña Nieto ainda não é o novo presidente do México?

López Obrador | Crédito da foto: AP Direito de imagem AP
Image caption Candidato derrotado nas eleições presidenciais, López Obrador contesta vitória de Peña Nieto.

O México vive hoje um paradoxo: os dados oficiais da comissão eleitoral apontam o candidato Enrique Peña Nieto, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), como o vencedor das eleições presidenciais realizadas em 1º de julho, mas, embora eleito, ele ainda não pode ser chamado de presidente.

A confirmação só ocorrerá quando se esgotarem todos os recursos apresentados por seus adversários políticos, um processo que pode se estender até setembro.

Em meio à tamanha confusão, muitos mexicanos estão se perguntando por que o sistema eleitoral do país é tão complexo. E a resposta para isso é que o mecanismo foi criado para resolver as diversas irregularidades que ocorreram com freqüência em um passado recente.

Segundo analistas ouvidos pela BBC Mundo, o sistema eleitoral mexicano coloca sob suspeita partidos políticos, mas não ainda ganhou a confiança do público.

Os tempos do 'carrossel'

Até 1989, a organização das eleições ficou a cargo da Comissão Eleitoral Federal, que respondia ao Ministério do Interior.

"O órgão, entretanto, não era imparcial", diz o especialista em eleições Jorge Alcocer Villanueva, pois "muitos de seus funcionários eram membros do Partido Revolucionário Institucional (PRI)".

"Cédulas eleitorais a mais eram colocadas nas urnas e os partidos da oposição, de tão frágeis, não conseguiam fiscalizar todos os postos eleitorais", diz.

Também não havia controle de presença dos eleitores, uma vez que o título eleitoral era feito de papelão e os dados preenchidos à máquina de escrever, sendo facilmente falsificados.

"Nos anos 80, havia no México o que chamávamos de "carrossel": cidadãos que votavam várias vezes porque não havia nenhum eleitor confiável", explica.

Como resultado, eleições eram constantemente questionadas, como a de 1988, que deu vitória a Carlos Salinas de Gortari. A partir daí, ressalta Alcocer, foi feita uma reforma que deu origem ao atual sistema eleitoral.

Um cidadão, um voto

Agora, as eleições são organizadas e supervisionadas pelos próprios cidadãos, com a ênfase no princípio "um cidadão, um voto", mas muitos continuam céticos em relação ao processo.

No México, os pleitos são realizados por um conselho municipal eleito pelo Congresso chamado Instituto Federal Eleitoral (IFE), no qual todos os partidos tem representantes, mas só com o direito de expressar suas opiniões.

Com a reforma, também ganhou força o Tribunal Eleitoral do Poder Judicial da Federação (Trife), ao qual cabe a palavra final nas eleições.

Os cartões de identificação dos eleitores têm inúmeras verificações de segurança, tais como hologramas e registro digitalizado das impressões digitais dos eleitores.

O mesmo acontece com as cédulas em que o voto é registrado.

"O sistema eleitoral atual é muito diferente do que tínhamos no passado", mas, segundo Alcocer, "foi construído a partir da evidência de um mecanismo eleitoral que operava sob o controle do PRI."

Cultura Política

Mas, apesar dos avanços, muitos mexicanos ainda não veem com bons olhos o sistema eleitoral do país.

Um deles é o candidato da coalizão de partidos de esquerda chamado Movimento Progressista, Andrés Manuel López Obrador.

López Obrador descreveu a recente eleição presidencial, que deu vitória a Enrique Peña Nieto, do PRI, como "suja" e "injusta".

"Devemos estar conscientes de nossa cultura política", diz à BBC Mundo Bernardino Esparza, professor do Instituto de Ciências Criminais (INACIPE).

"As pessoas deveriam ser mais conscientes do que gostam, do que leem, e precisam ter maior cultura política, saber mais sobre o que está acontecendo", critica.