Corrida por economias seguras alimenta fenômeno dos juros negativos

Notas de dólares (Foto AP) Direito de imagem AP
Image caption Títulos emitidos por governos de países como EUA, Alemanha e Dinamarca preveem juros negativos

A corrida dos investidores por economias que oferecem menor risco está fazendo com que alguns governos e bancos centrais tomem empréstimos e recebam depósitos a juros negativos. Na prática, isso significa que ao emprestar para os governos desses países - entre eles Alemanha, Suíça, Dinamarca, Estados Unidos e, mais recentemente, França - os investidores algumas vezes têm de pagar ao invés de receber remuneração.

"Trata-se de um fenômeno novo, que tomou forma nos últimos três meses, impulsionado pelo agravamento da crise global", diz Wilber Colmerauer, diretor da consultoria de investimentos Brazil Funding, com sede em Londres.

Só para mencionar um exemplo, recentemente um título de dois anos da dívida alemã, por exemplo, oferecia rendimentos de - 0,012%. O valor é estipulado em leilão. Ele determina que um investidor que emprestou uma determinada quantia para o governo alemão, receberá um pouco menos que essa mesma quantia em 48 meses.

A experiencia recente mais radical nesse sentido parece ser a da Dinamarca, que adotou juros nominais negativos para depósitos no Banco Central (BC) na semana passada, seguindo um caminho semelhante ao tomado pela Suécia de forma isolada em 2009. Segundo o Financial Times, a Suíça estaria estudando adotar medidas semelhantes para conter a valorização de sua moeda.

Hoje, bancos particulares precisam pagar 0,2% para colocar seu dinheiro no BC dinamarquês, além de 0,23% ao comprar títulos do governo do país.

Em muitas das grandes economias desenvolvidas, as taxas reais de juros - descontada a inflação - há algum tempo já eram negativas, o que significa que a alta de preços corroía o ganho dos depósitos e investimentos em títulos do tesouro.

Razões

Mas por que investidores estão pagariam para emprestar ou depositar seu dinheiro na Dinamarca em vez de mantê-lo em um cofre sem pagar nada?

Primeiro, é preciso considerar o risco e o custo desse armazenamento, principalmente no caso de quantias muito elevadas.

"Além disso, existe um clima de insegurança muito forte no mercado internacional - com desconfiança tanto em relação a determinados países, quanto a instituições financeiras e moedas", explica Colmerauer.

Países como Alemanha, Suíça e Dinamarca são considerados portos seguros por investidores mais conservadores que aplicam em títulos públicos. "Muitos desses investidores estão mais preocupados em preservar seu capital, ainda que com pequenas perdas, do que em ganhar mais assumindo riscos", o analista completa.

"Como resultado, na prática o que temos é uma polarização dos mercados", explica Colmerauer. "De um lado, as economias consideradas seguras estão adotando até juros negativos sobre empréstimos e depósitos - e ainda assim não conseguem estimular o consumo e investimentos na economia real. Do outro, países como Grécia e Espanha têm de pagar taxas de juros cada vez maiores."

Juros baixos

O fenômeno dos juros negativos surge em um momento em que um número crescente de países desenvolvidos e emergentes vem reduzindo suas taxas de juros e de remuneração de depósitos para níveis excepcionalmente baixos, numa tentativa de estimular os níveis de investimento e consumo, achatados pela crise.

A decisão do Banco Central brasileiro de cortar os juros básicos da economia em 0,5 pontos percentuais, para 8% ao ano, acompanha essa tendência.

Na semana passada, o Banco Central Europeu derrubou sua taxa de juros de 1% para 0,75% - o patamar mais baixo já atingido pela zona do euro -, e eliminou a taxa paga aos depósitos, de 0,25%. Nos EUA, o FED tem mantido os juros entre 0% e 0,25%.

O Banco da China reduziu a taxa de remuneração dos depósitos e fez dois cortes de juros depois que foi anunciado que o país cresceu abaixo das expectativas. A Coreia do Sul cortou sua taxa de juros ontem pela primeira vez em três anos.

Entre os países ricos que hoje têm juros nominais próximos de zero também estão a Suíça, o Japão e a Inglaterra.

"Se os países mais seguros para investimentos estão oferecendo remunerações tão baixas, em tese o Brasil pode cortar juros e continuar a atrair investidores. O problema é que existe o risco de o corte ser percebido como um sinal de que ainda há incertezas sobre os níveis de crescimento brasileiro e ter um efeito contrário", opina Colmerauer.

Para ele, a experiência dos países desenvolvidos mostra que simplesmente baixar os juros tem um impacto relativamente limitado nos esforços para retomar o crescimento da economia.

"O Brasil precisa lidar com seus problemas estruturais como excesso de burocracia e falta de infraestrutura para retomar o crescimento", diz.

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