Brasil precisa de ‘política mais voltada à produção’, diz economista de Harvard

Dani Rodrik (Foto Paulo Cabral) Direito de imagem BBC Paulo Cabral
Image caption Dani Rodrik: "Estado precisa ser flexível para mudar as políticas quando elas se revelarem erradas"

Nos anos 1990, o economista turco Dani Rodrik – professor na universidade americana de Harvard – criticava os excessos do mercado e conceito de Estado mínimo. Na época, o liberalismo do "Consenso de Washington" orientava as políticas econômicas na maior parte da América Latina, inclusive no Brasil.

Três décadas depois, os ventos sopram em outra direção. Agora, as ideias de Rodrik – a favor de um Estado indutor do desenvolvimento, através de uma política industrial ativa – estão alinhadas com os princípios de diversos governos da região, inclusive o de Dilma Rousseff.

"Não há economia de mercado sem Estado. Todas as economias bem sucedidas são economias mistas, com substancial envolvimento do Estado", disse Rodrik em entrevista à BBC Brasil.

O economista veio ao Rio de Janeiro a convite do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para apresentar suas ideias em um evento que marca os 60 anos da instituição, que é o principal instrumento de política industrial do governo.

"O Brasil parece estar voltando para sua tendência tradicional, de dar mais ênfase ao envolvimento estatal. A chave (para obter sucesso com essa estratégia) é ter uma visão pragmática e não ideológica", diz o professor de Harvard.

Apesar de aprovar o direcionamento geral da política econômica brasileira, Rodrik acredita que o Brasil ainda precisa fazer ajustes em algumas áreas para ampliar o estímulo à produção - por exemplo, na política cambial.

"Há sinais de que o Brasil possa estar em uma fase de transição e, depois de reafirmar sua credibilidade no aspecto macroeconômico, possa passar para uma fase de equilíbrio mais saudável entre políticas macroeconômicas e de câmbio, que favoreçam a produção", disse.

BBC Brasil - Durante os anos 1990, no governo de Fernando Henrique Cardoso, a posição predominante da equipe econômica, principalmente no primeiro mandato, com Gustavo Franco à frente do Banco Central, era resumida na frase "a melhor política industrial é não ter política industrial". Eles estavam errados ou os tempos é que eram outros?

Dani Rodrik - Nos anos 1990 havia uma tendência em associar a crise que o Brasil sofreu nos anos 1980 com as políticas industriais e de substituição de importações adotadas no passado. Agora, entendemos melhor essa questão. Ficou claro que é possível que crises financeiras aconteçam mesmo em países que não adotam políticas industriais e é possível evitar essas crises mesmo com políticas industriais. Mostre-me um país que não tem uma política industrial e eu vou lhe mostrar um país que nunca se desenvolveu. Empiricamente, a questão não é se é ou não necessário adotar uma política industrial, mas como fazer isso corretamente. Qualquer perspectiva que começa da premissa de que a ‘melhor política industrial é não ter política industrial’ é empírica e teoricamente errada.

BBC Brasil - Mas não foi a forte participação do Estado na economia, gastando e investindo, no lugar do setor privado, uma das causas da crise da dívida e da hiperinflação dos anos 80?

Rodrik - Existe uma diferença essencial que tem de ficar clara: o que gera crises financeiras e crises de dívidas são desequilíbrios macroeconômicos. Se um Estado gasta mais do que ganha ou se o setor financeiro faz muitas operações de alto risco, as coisas inevitavelmente acabam mal. Mas esses ‘macro-desequilíbrios’ e excessos financeiros podem acontecer independentemente de sua estrutura de incentivos ou sua política industrial.

BBC Brasil - O governo da presidente Dilma Rousseff dá mostras claras de acreditar na importância do Estado como indutor do desenvolvimento. Na opinião do senhor, o Brasil está acertando nessas políticas?

Rodrik - Não há economia de mercado sem Estado. Todas as economias bem sucedidas são economias mistas, com substancial envolvimento do Estado. O Brasil tem que encontrar uma combinação adequada desses dois elementos (Estado e mercado). O país parece estar voltando a sua tendência tradicional de mais de ênfase ao envolvimento estatal. A chave (para obter sucesso com essa estratégia) é ter uma visão pragmática e não ideológica. É inevitável que o Estado algumas vezes vá cometer erros, mas é importante ser suficientemente pragmático e flexível para mudar políticas quando estas se revelarem erradas.

BBC Brasil - Como o senhor compara o crescimento econômico experimentado no Brasil nos anos 1970, durante o período do "Milagre Econômico", com a fase atual da economia brasileira?

Rodrik - O Brasil mostrou (nos anos 1970) que podia crescer muito rapidamente, a taxas de 7% ou mais, com algumas políticas industriais amplas e altos níveis de proteção. A experiência dos anos 1980, com a crise de dívida, a hiperinflação e a instabilidade macroeconômica, levou à substituição das políticas econômicas produtivas por outras mais direcionadas aos mercados financeiros. O preço dessa nova orientação foi a perda da importância da produção nas políticas econômicas brasileiras.

Uma consequência prática disso é a tendência de a moeda se sobrevalorizar devido às altas taxas de juros e às politicas de metas de inflação seguidas pelo Brasil. Por isso, a taxa de câmbio não pode ser usada para estimular a produção e a exportação dos setores manufatureiros, o que tem impacto no crescimento econômico.

Há sinais de que o Brasil possa estar em uma fase de transição e, depois de reafirmar sua credibilidade no aspecto macroeconômico, possa passar para uma fase de um equilíbrio mais saudável entre políticas macroeconômicas e de câmbio, que favoreçam a produção.

BBC - Mas o Brasil está no caminho de conquistar essa credibilidade? Há dois ou três anos, havia uma certa euforia com as perspectivas da economia brasileira mas aparentemente agora os analistas já veem o país com mais preocupação.

Rodrik - Honestamente, nunca imaginei que aquele crescimento fosse se sustentar. Nunca achei que o Brasil iria crescer 8% ao ano. Então, não acho que a situação do Brasil, dentro do atual contexto global seja assim tão inesperada. Temos que diferenciar questões cíclicas de tendências de médio prazo. É perfeitamente possível para o Brasil crescer a um ritmo de 4% a 5% mesmo com o cenário desfavorável, no médio prazo.

BBC Brasil - O Brasil parece ter muitos elementos o favorecendo no longo prazo, como recursos naturais, uma grande população em idade ativa e relativa estabilidade política. O País está no caminho do desenvolvimento? O que poderia dar errado?

Rodrik - O Brasil tem muitos pontos fortes e por essa razão está na minha lista de nações em posição relativamente boa em um ambiente relativamente ruim. O que poderia dar errado? Normalmente, duas coisas dão errado. Uma acontece quando ideologias tomam o controle de políticas econômicas: temos que evitar tanto a visão fundamentalista de mercado como a visão planificadora radical.

E outra coisa que com frequência dá errado é a política. Agora que Brasil consolidou sua democracia, erros nessa categoria são menos prováveis, mas em países autoritários, quando um governante morre; ou há um golpe de Estado; ou alguém comete um erro e não há ninguém para pará-lo; a economia sai dos trilhos.

BBC Brasil - A experiência chinesa não mostra o contrário? O país tem uma economia altamente planificada e um regime autoritário, mas tem instituições suficientemente consolidadas para substituir seu líderes sem grandes rupturas.

Rodrik - A China vem de um período em que se saiu muito bem. Sem dúvida, tem um regime autoritário bem governando, enquanto a maioria dos regimes autoritários não são bem governados. Mas eu acredito que os problemas de um regime autoritário tendem a ficar mais sérios na medida em que os países se desenvolvem e começam a ter uma classe média que quer ter voz e participar. Eles começam a também ter problemas com corrupção em altos escalões. Então não importa quão bem a China tenha ido até agora, o país está chegando a um ponto em que o autoritarismo e o monopólio do partido único começam a criar limitações significativas às possibilidades de crescimento. Olhando para o futuro, eu seria bem mais otimista a respeito da Índia, que já tem uma democracia consolidada, do que em relação à China, que ainda não fez essa transição.

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