Londres 2012: Judoca é primeiro palestino classificado para Olimpíada

Maher Abu Rmeileh | Crédito da foto: AFP Direito de imagem Reuters
Image caption Além do judô, Rmeileh vende lenços em sua loja em Jerusalém para complementar orçamento

Força de vontade e capacidade de superação são duas qualidades que definem a personalidade de Maher Abu Rmeileh, o judoca de Jerusalém Oriental que se tornou o primeiro atleta da história a se classificar como representante da Autoridade Nacional Palestina (ANP) na Olimpíada.

Outros quatro atletas (dois corredores e dois nadadores) completam a delegação dos territórios autônomos, mas eles viajaram a convite do Comitê Olímpico Internacional (COI), que permite a atletas de nações em conflito competir nos Jogos mesmo que não tenham passado pelas eliminatórias.

"Estou orgulhoso de carregar a bandeira do meu povo, juntamente com a de outros países", disse Rmeileh em sua loja onde vende hijabs (véu islâmico), localizada no coração do bairro muçulmano da Cidade Velha de Jerusalém, antes de viajar para Londres.

Com apenas 28 anos, Rmeileh foi o responsável por chefiar a delegação palestina na cerimônia de abertura dos jogos.

Ao desfilar pelo Estádio Olímpico, em Stratford, Rmeileh certamente pensou em seu pai, o homem que o introduziu ao mundo do judô quando ele tinha apenas 6 anos e que, sem recursos financeiros para bancar seu próprio sonho de se tornar um judoca profissional, decidiu dispender todos os esforços possíveis para torná-lo realidade com seu filho.

"Muitas vezes, tive de faltar ao trabalho para poder ir treinar", afirmou Rmeileh, em Jerusalém.

"Sou o orgulho de toda a família", acrescentou o judoca, um homem simples de olhar terno, enquanto atendia a várias mulheres interessadas no preço das dezenas de lenços, de todas as cores, formas e texturas, pendurados em sua loja.

Família

Durante anos, Rmeileh saía religiosamente da loja da família às 15h30 (horário local) em direção ao ginásio de Al Quds, em Jerusalém Oriental e a dez minutos a pé da Porta de Damasco, uma das principais entradas da Cidade Velha de Jerusalém.

No local, o judoca treina de duas a três horas diárias, além de gastar outra hora dentro da piscina da Associação Cristã dos Moços (ACM) no início da manhã, localizada na região leste da cidade.

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Image caption Antes de ir a Londres, judoca palestino treinava entre duas e três horas diárias

"Às vésperas dos Jogos, aumentei as horas de treinamento na parte da manhã e da tarde, mas tenho dado prioridade aos alongamentos para evitar lesões antes de viajar para Londres", afirmou Rmeileh.

No ginásio, não há vestiários. Os atletas trocam-se na frente de todo o público e às vezes usam as portas de um armário para garantir um pouco de privacidade.

O local de treinamento também foi concebido exclusivamente para a prática do esporte. Junto às paredes, dezenas de cadeiras azuis foram empilhadas, uma amostra de que o espaço é usado tanto como centro de conferências quanto como espaço para treino.

"Maher é o melhor judoca que temos na Palestina. Estou confiante de que ele nos trará uma medalha", disse Halabi, treinador de Rmeileh e chefe da Federação Palestina de Judô.

A organização financiou a viagem de seus atletas a Londres com os pontos conquistados pelo judoca durante o último torneio mundial, em Tóquio. Porém, durante anos, Rmeileh precisou contar com a ajuda da família para custear seus deslocamentos, além dos cursos de formação e das aulas.

"Eu gostaria de me dedicar profissionalmente ao judô e não ter de trabalhar, mas a loja é minha prioridade. Com ela, consigo sustentar minha família", afirmou.

Rmeileh quer, agora, demonstrar o que aprendeu em Londres. Ele já considera sua viagem ao Reino Unido para participar do maior evento esportivo do mundo como uma vitória, mas ressalva que amigos e vizinhos estão depositando suas esperanças nele.

Seja qual for o resultado, Rmeileh deixou claro o quer fazer quando voltar da Olimpíada: ensinar o que sabe para muitos jovens, como seu pai fez com ele, "para que um dia não haja apenas um, mas muitos judocas competindo pela Palestina devido aos próprios méritos e não por convite da organização da Olimpíada".

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