Londres 2012: Após isolamento, Mayra Aguiar conquista bronze no judô

Mayra Aguiar (de branco) luta com a americana Kayla Harrison (foto: Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption A judoca Mayra Aguiar (de branco) luta com a americana Kayla Harrison

Depois de quatro dias consecutivos sem ganhar medalhas nos Jogos de Londres 2012, o Brasil conseguiu levar o bronze nesta quinta-feira com a judoca Mayra Aguiar na categoria meio-pesado, de até 78kg. Após iniciar a competição com um ouro e um bronze, o judô brasileiro sofreu uma série de derrotas que levaram a delegação a buscar alternativas no preparo dos atletas que ainda estavam competindo.

Todos os judocas brasileiros sempre comparecem às lutas de seus colegas, mas na quarta-feira, véspera de seu dia de competição, Mayra Aguiar ficou na Vila Olímpica.

"Eu optei por descansar, por ficar mais tranquilinha no quarto", disse Aguiar, após o bronze. Tanto ela quanto a delegação avaliaram que as eliminações de atletas experientes – como Leandro Guilheiro e Tiago Camilo – estavam afetando o moral dos judocas que ainda competiriam no torneio.

"Foi um pouco duro como ocorreu, mais uma fatalidade, porque são pessoas que tinham chances reais de ganhar medalha", disse Aguiar.

Iniciativa

Nos últimos dias, a comissão técnica orientou os judocas brasileiros a ter mais iniciativa durante as lutas, sem se deixar neutralizar pelos rivais.

"É como o [técnico] Ney sempre diz: 'Tem que entrar com sangue nos olhos, tem que querer ganhar mais do que o adversário'", afirmou a judoca.

A postura mais proativa ficou clara logo nas duas primeiras lutas de Aguiar, vencidas com facilidade. Na estreia contra a tunisiana Hana Mareghni, ela aplicou um wazari e ganhou a luta após três punições à adversária.

Nas quartas-de-final, contra a polonesa Daria Pogorzelec, precisou de menos de três minutos para aplicar dois wazaris.

A semifinal entre Mayra Aguiar e Kayla Harrison foi um contraste grande com as demais lutas "táticas" da maioria dos judocas brasileiros e seus rivais em Londres 2012.

Nos confrontos dos últimos dias, as lutas tiveram pouca agressividade e muitas punições por falta de combatividade, o que levou o judoca Tiago Camilo a dizer que o judô praticado nas Olimpíadas por todos "está feio".

Mas na luta entre a brasileira e a americana, a atitude foi oposta. Desde o começo Mayra partiu para o ataque, como fizera em lutas anteriores. Em uma das disputas, Aguiar deu um leve empurrão na americana quando a luta havia sido parada pelo árbitro. A americana devolveu o empurrão e levantou seus braços, em reclamação.

Aos poucos, Harrison foi melhorando, e quase conseguiu um yuko, mas a luta estava parada. A um minuto do final, a americana conseguiu um yuko que foi decisivo na luta. Com o pouco tempo que faltava, Aguiar partiu para o ataque com muita vontade, mas sofreu o ippon nos últimos segundos, por chave de braço.

"Eu saí daquela luta com muita vontade de chorar, e ainda tinha estalado meu braço inteiro no final da luta. Quando eu saí dali, veio o Aurélio Miguel e disse: 'Mayra, não acabou ainda, ainda tem mais uma competição'. E realmente acabou o choro ali. Ainda deixei uma lágrima escapar, mas eu disse a mim mesma: 'essa eu não vou deixar escapar, eu vou levar uma medalha para casa'."

Aguiar e Harrison – respectivamente as números 1 e 2 do mundo – são famosas pela grande rivalidade no tatame. No entanto, a brasileira disse que não há nenhum problema pessoal entre ambas, e que a rixa é apenas profissional.

"Fizeram muito bafafá entre eu e ela, nós lutamos várias vezes juntas. É uma adversária que eu respeito muito. Já ganhei dela várias vezes e ela ganhou várias vezes de mim."

Kayla Harrison acabou conquistando a primeira medalha da história do judô americano em uma luta emocionante contra a britânica Gemma Gibbons, que nunca esteve entre as favoritas, mas foi a sensação do torneio. A luta final teve a presença na arena do premiê britânico, David Cameron, e do presidente russo, Vladimir Putin.

Dores e pressão

Aguiar também revelou que sofreu uma lesão entre a luta da prata e a disputa do bronze.

"Eu falei para o doutor: 'Doutor, dá um jeito aqui, o negócio está brabo'. Eu não conseguia fazer nada, eu não conseguia fechar a mão. Ele deu um jeito lá, o fisioterapeuta botou esparadrapo e lutei com ele [o braço] amarrado. Me falaram: 'Agora é superação, mas vai doer'. Era difícil esquecer a dor, mas a medalha estava falando mais alto. Ela gritou no meu ouvido."

Apesar da dor, o desempenho de Aguiar contra a holandesa Marhinde Verkerk foi arrasador. Em menos de dois minutos de prova, ela liquidou a luta com um ippon.

A atleta brasileira, que completa 21 anos na sexta-feira, emocionou-se ao falar sobre as críticas que os atletas têm recebido através da internet.

"Nós lemos muita coisa na internet que doeu bastante na gente", disse Aguiar, chorando. Ela não quis entrar em detalhes sobre as críticas recebidas, e nem sequer confirmou quem foi o alvo de internautas.

Após a desclassificação por um golpe irregular na segunda-feira, a judoca Rafaela Silva trocou insultos com alguns internautas pelo Twitter e foi vítima de racismo pela internet.

"É duro, a gente sofre bastante com isso [críticas pela internet]. Só a gente sabe o quanto é sofrido as ter lesões, ficar longe da família. Então só queria pedir um pouco mais de respeito pelos atletas heróis brasileiros que batalham e lutam pelo país"

As medalhas de Mayra Aguiar e de Sarah Menezes em Londres 2012 tornaram o judô feminino mais premiado nas Olimpíadas do que o masculino. Até Pequim 2008, quando Ketleyn Quadros levou o bronze, o Brasil nunca havia ganhado medalhas no judô feminino.

"O judô feminino cresceu bastante. O incentivo, o fato de acreditarem no judô feminino nos ajudou. Todo o investimento que fizeram, as viagens, as competições foram o que tornaram isso realidade. É claro que não dá para comparar, aliás nem é preciso ficar comparando o masculino e o feminino, é tudo uma equipe", disse a atleta.

O Brasil está agora a uma medalha de cumprir a meta da Confederação Brasileira de Judô (CBJ) para os Jogos de Londres. Na sexta-feira, Rafael "Baby" Silva e Maria Suelen Altheman entram no tatame para o último dia de judô nas Olimpíadas.

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