Para Uribe, negociações de paz com as Farc começam mal

Atualizado em  6 de setembro, 2012 - 17:39 (Brasília) 20:39 GMT
Ex-presidente colombiano Alvaro Uribe

Para Uribe, participação da Venezuela nas negociações favorece a reeleição de Chávez

O ex-presidente da Colômbia Álvaro Uribe criticou, em entrevista à BBC Mundo, o início das negociações de paz entre o governo e o maior grupo guerrilheiro do país, as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), que tem como objetivo o fim do conflito de cinco décadas.

Desde que o diálogo foi anunciado, o mandatário entre 2002 e 2010 se declarou contra a iniciativa e vem se mantendo como um de seus maiores opositores, seja via Twitter, imprensa ou por meio de seus assessores.

O antecessor do atual presidente, Juan Manuel Santos, disse que as negociações que devem começar na Noruega em outubro seriam uma “bofetada na democracia”.

A estratégia do governo Uribe, do qual Santos era ministro da Defesa, baseava-se em derrotar militarmente a guerrilha.

Em primeira mão à BBC Mundo, Uribe explica os motivos de sua crítica:

BBC Mundo - Por que o sr. se opõe ao diálogo de paz?

Álvaro Uribe - No governo que eu presidi, a Colômbia estava caminhando em direção à paz. A primeira dificuldade que vejo com esse diálogo começa com a segurança pública debilitada, um Estado debilitado e um terrorismo fortalecido.

A segunda dificuldade é que o governo não exigiu que o grupo terrorista das Farc encerrasse suas atividades criminais como condição para avançar o diálogo.

A terceira dificuldade é a disponibilidade do governo de negociar temas de um país com um grupo terrorista.

BBC Mundo - Na sua opinião, então, o que deveria estar sendo feito agora?

Uribe - Nós vínhamos trabalhando no setor de segurança com valores democráticos, ao lado de investimentos e políticas sociais. Não tínhamos resolvido os problemas do país, mas estávamos em um bom caminho.

Nossas prioridades eram a segurança, com autoridades sérias, e ao mesmo tempo uma reinserção à sociedade generosa mas sem impunidade.

Além disso, 53 mil pessoas foram reinseridas à sociedade, sendo 35 mil membros de milícias de direita e 18 mil guerrilheiros que desertaram. Implementamos ainda uma política social eficaz que evitava que os jovens fossem recrutados pelo terrorismo.

Esse era um bom caminho para o país, um país que estava avançando.

BBC Mundo - Nesta terça-feira, o ex-presidente Andrés Pastrana disse à BBC Mundo que o “único colombiano que nunca havia dado uma oportunidade à Colômbia de alcançar a paz se chama Álvaro Uribe”. Qual é a sua reação?

Uribe - Amigo, isso não. Se você tem outra pergunta, responderei com muito prazer.

BBC Mundo - Santos disse que o plano de rota tem origem em um dos canais estabelecidos pelo governo anterior. Isso é uma continuação do que o sr. fez como presidente?

Uribe - Não, não exatamente. O presidente Santos se elegeu por causa da nossa política, por isso ganhou as eleições. Mas depois a abandonou.

BBC Mundo - O sr. criticou o fato de a Venezuela estar acompanhando o processo e disse que o diálogo favorece a reeleição do presidente Hugo Chávez. Em que o sr. se baseia para afirmar isso?

Uribe - A Colômbia tem centenas de provas da cumplicidade de Hugo Chávez com os grupos terroristas colombianos. É triste que o presidente Santos, que foi o latino-americano mais radical contra a ditadura chavista, agora diga que Chávez é o fator de estabilidade da Venezuela e da região.

E que agora coloquem o governo Chávez, que é cúmplice das Farc, como mediador. Isso o ajuda eleitoralmente, porque agora vai limpar sua imagem. Vai dizer: “eu não sou cúmplice das Farc, eu sou o mediador de um problema da Colômbia.”

BBC Mundo - O sr. se opõe a uma eventual participação política dos guerrilheiros. Mas tanto na Colômbia como em outros países da região, houve políticos que também abandonaram as armas. Por que isso não pode acontecer com as Farc?

Uribe - Em outros países latino-americanos, houve, sim, processos de paz com essas características. As guerrilhas aceitaram a paz porque estavam militarmente esgotadas. Aqui, faz dois anos que estamos na iminência de uma derrota, mas esses dois anos do governo Santos permitiram o recrudescimento do terrorismo.

Em outros países, as guerrilhas aceitaram a paz porque já não recebiam dinheiro de outros países. Na Colômbia, esses grupos são formados por narcotraficantes.

Em outros países, as guerrilhas aceitaram a paz porque os governos ditatoriais concediam oportunidades democráticas. Na Colômbia, temos uma democracia respeitável.

Se em um processo de desmobilização há pessoas que são acusadas apenas de delitos políticos, então que as elejam e que participem da política. Mas não creio que seja saudável para a democracia que um guerrilheiro ou paralimitar – que participava do narcotráfico, de extorsões ou de sequestros – receba como prêmio a possibilidade da elegibilidade política.

BBC Mundo - Em uma declaração recente, o presidente disse que não se deixará “amedontrar por sabotadores” que costumam aparecer nesses momentos. A quem o sr. acha que ele estava se referindo?

Uribe - Amigos, muito obrigado. Eu já lhes disse o fundamental.

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