Conflito interno em cartel aumenta temor de violência no México

Atualizado em  12 de setembro, 2012 - 04:38 (Brasília) 07:38 GMT
Cruzes com nomes de vítimas de violência no México

Governo diz que divisão é fator importante no aumento da violência em alguns Estados mexicanos

Foi uma incrível história de fuga. No mês passado, um homem conseguiu sobreviver a um massacre no México ao se fingir de morto.

Ele se escondeu sob os corpos de outras 14 pessoas mortas a tiros e jogadas em uma minivan, na qual os criminosos dirigiram até a cidade de San Luis Potosi.

Ele conseguiu escapar quando o veículo cheio de cadáveres parou para abastecer.

Mas logo ficou claro que o sobrevivente não era uma vítima qualquer. Na verdade, ele era membro da mesma organização que o atacou, a temida e violenta rede criminosa Los Zetas.

O episódio confirmou um boato perturbador no México: que os Zetas se dividiram em duas facções rivais, que agora lutam uma contra a outra.

Os Zetas surgiram no final dos anos 1990, então ligados ao Cartel do Golfo. Responsáveis pela proteção do império de tráfico do cartel, os Zetas eram formados principalmente de desertores de uma tropa de elite do Exército mexicano chamada El Gafe.

Em 2005, os Zetas já haviam se separado de seus patrões e começado a cuidar de seus próprios empreendimentos criminosos.

Agora, parece que o grupo se dividiu mais uma vez, desta vez internamente.

Líderes

Uma facção é liderada por um dos fundadores dos Zetas, um ex-comandante do Gafe chamado Heriberto Lazcano, conhecido como "El Lazca" ou "Z-3".

A outra é comandada por Miguel Ángel Treviño, conhecido como "Z-40", ex-membro do Cartel do Golfo considerado responsável por alguns dos crimes mais hediondos e sangrentos cometidos pelos Zetas.

A procuradora geral do México, Marisela Morales, confirmou recentemente que relatos de fontes de inteligência do governo indicam que os Zetas estão agora em guerra contra eles próprios.

Esses grupos inevitavelmente começam "a se separar e a se dividir", disse ela, chamando a divisão de "um fator importante no aumento da violência" nos Estados do norte do México, como San Luis Potosi, Coahuila e Zacatecas.

Alguns jornalistas policiais locais já chamaram a atenção para recentes "narco-mantas" – banners colocados em locais públicos por gangues de traficantes – acusando Heriberto Lazcano de traição como mais uma prova da divisão.

Mas apesar da natureza circunstancial dessas provas, a maioria dos especialistas que estudam a organização concorda que a ruptura é real.

"Estou convencido de que é verdade", diz George Grayson, co-autor do livro The Executioner’s Men, sobre os Zetas.

"Lazca e Z-40 são na verdade bem diferentes. Eles raramente se encontravam, talvez apenas uma vez por mês. Eles se comunicavam por telefones celulares, que eles então jogavam fora após cada conversa."

Poucas afinidades

Os dois homens vivem em diferentes partes do país, diz Grayson, e têm pouco em comum além de sua parceria no crime.

"Seus interesses comuns eram carros velozes, cavalos velozes e mulheres velozes, armas e caçar animais exóticos em uma reserva de caça em Coahuila."

Dos dois, Miguel Ángel Treviño tem a reputação mais terrível.

"Não que El Lazca seja um santo, mas Z-40 parece se divertir cometendo os atos mais incrivelmente sádicos", diz Grayson.

Acredita-se que foi Z-40, por exemplo, o responsável por um dos mais macabros episódios da guerra das drogas no México, no qual 72 pessoas foram torturadas, estupradas e assassinadas em um rancho em San Fernando, em Tamaulipas.

Miguel Ángel Treviño e Heriberto Lazcano

Miguel Ángel Treviño e Heriberto Lazcano comandam facções rivais dos Zetas

É difícil saber exatamente por que a separação ocorreu agora.

"Na estrutura dos Zetas há poucas barreiras para entrar na parte lucrativa do negócio", diz Steven Dudley, co-fundador da consultoria Insight Crime, especializada em crime organizado nas Américas.

Segundo ele, qualquer organização estruturada desta maneira irá eventualmente se dividir.

"Os Zetas também estão sob tremenda pressão por parte de agentes da lei nos dois lados da fronteira, e seus rivais criaram alianças para atacá-los", diz.

Para Grayson, a separação entre Lazcano e Trevino certamente não é sobre ideologia. A gota d’água pode ter sido algo tão trivial como uma discussão sobre um cavalo ou uma mulher, diz.

Neste ano, um rentável rancho de criação de cavalos no Estado americano de Oklahoma, comandada pelo irmão mais novo de Z-40, Jose Trevino, foi fechada pelas autoridades dos EUA, e ele foi preso.

Este episódio tem sido mencionado como uma possível fonte de fricção entre os dois homens.

Medo

Em meio a tudo isso, a possibilidade de violência de Zetas contra Zetas enche alguns Estados mexicanos de terror.

"Se você tem uma revenda de carros em San Luis Potosi e um comandante Zeta vem e pede sua cota semanal, e então outro vem e pede pela mesma coisa, quem você paga? Deve ser um pesadelo", diz Dudley.

Os Zetas estão envolvidos em mais de 20 atividades criminosas diferentes, de extorsão a tráfico humano. Gangues criminosas menores geralmente tentam lucrar com seu nome e o medo que provocam na população.

"Os Zetas devem sobreviver como marca. Mas as mudanças dentro da organização serão enormes", prevê Dudley.

A preocupação é que muito mais sangue seja derramado pelo caminho.

Leia mais sobre esse assunto

Tópicos relacionados

BBC © 2014 A BBC não se responsabiliza pelo conteúdo de sites externos.

Esta página é melhor visualizada em um navegador atualizado e que permita o uso de linguagens de estilo (CSS). Com seu navegador atual, embora você seja capaz de ver o conteúdo da página, não poderá enxergar todos os recursos que ela apresenta. Sugerimos que você instale um navegados mais atualizado, compatível com a tecnologia.