Dilma troca conceito de 'guerra' por 'pacto' ao defender crescimento mundial

Atualizado em  25 de setembro, 2012 - 23:58 (Brasília) 02:58 GMT
A presidente Dilma Rousseff em Nova York (Foto: Reuters)

Dilma disse que países devem evitar 'atitudes unilaterais' para conter efeitos da crise global

A presidente Dilma Rousseff substituiu nesta terça-feira a ideia de "guerra" pela de "pacto" ao defender, na sede da ONU, em Nova York, que os países se entendam sobre a melhor forma de retomar o crescimento econômico global.

Defendendo que os países evitem "atitudes unilaterais" para conter os efeitos da crise global em suas economias, a presidente disse que "é urgente a construção de um amplo pacto pela retomada do crescimento global, impedindo a desesperança provocada pelo desemprego e pela falta de oportunidades".

É uma mudança sutil de ângulo ao colocar uma queixa recorrente que o Brasil costuma levar a fóruns internacionais: a de que muitas destas políticas unilaterais constituem de fato "guerras" – como a "guerra cambial", cunhada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega – que acaba afetando negativamente outras economias.

"O que acho que caracteriza esse momento é que se você tomar atitudes unilaterais, elas têm sempre impacto sobre algum país", disse Dilma aos jornalistas, no fim da terça-feira.

No caso da crise econômica, prosseguiu, o uso de políticas monetárias expansionistas nos países ricos, que injetam recursos nas economias emergentes, acarretam a desvalorizações das moedas destes países.

Daí a legitimidade do que, mais cedo – no seu discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU –, Dilma chamou de "legítima defesa comercial".

"Não podemos aceitar que iniciativas legítimas de defesa comercial por parte dos países em desenvolvimento sejam injustamente classificadas como protecionismo", disse Dilma.

"Devemos lembrar que a legítima defesa comercial está amparada pelas normas da Organização Mundial do Comércio (OMC)."

Guerra protecionista

A "guerra" de baixa intensidade – e às vezes nem tão baixa – é alimentada por medidas de expansão monetária que, só nos EUA, já despejaram mais que o equivalente a um PIB brasileiro nos últimos quatro anos (cerca de US$ 2,5 trilhões, segundo a presidente).

Tais medidas, que continuam sendo estudadas, por exemplo, pelo Fed, o Banco Central americano, não surtiram o efeito de promover a retomada da economia, "porque o dinheiro não está sendo investido".

Ao mesmo tempo, a injeção de recursos promove a desvalorização das moedas dos países ricos. Foi em resposta a esses movimentos cambiais que o Brasil anunciou a elevação das tarifas pagas sobre cem produtos importados para que entrem no Brasil.

Além disso, o ministro Mantega acenou com a possibilidade de aumentar o Imposto sobre Operações Financeiros (IOF) para interromper a "entrada de capital especulativo" no Brasil – que, segundo ele, não traz emprego nem renda.

Às vésperas da viagem de Dilma aos EUA, o representante do Executivo para o Comércio Exterior, Ron Kirk, disse que a elevação das tarifas é "claramente protecionista" e sugeriu que pode gerar retaliações por parte dos parceiros comerciais do Brasil.

"A gente tem de buscar um pacto e não ficar apontando o dedo uns para os outros. Um pacto de saída para a crise", disse Dilma nesta terça-feira.

"Não adianta nada a gente ficar fazendo classificação e trocando acusações de protecionismo. O que adianta é compreender que todos nós sofreremos as consequencias desta situação."

Bilaterais

Entre outras discussões econômicas levadas a cabo aqui em Nova York, esteve uma longa conversa com o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, em que foi discutida a retomada do acordo UE-Mercosul, cujas negociações se arrastam há 12 anos.

Dilma deixou claro que é "parte integrante do Mercosul" e não tem "nenhum poder de negociar acordo de livre comércio sem que seja nos princípios da região". Entretanto, expressou que achava "muito importante retomar uma pauta prospectiva".

Uma reunião técnica sobre o assunto está marcada já para outubro e o governo vai tentar marcar outra reunião política no início de janeiro de 2013, quando Durão Barroso estará no Brasil de passagem para a Cúpula America Latina-Caribe-UE, que se realizará no fim de janeiro em Santiago, no Chile.

Em outros contatos com chefes de Estado, a presidente brasileira se encontrou com os líderes egípcio, Mohammed Morsi, e indonésio, Susilo Bambang. Além disso, conversou por telefone com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

Com Susilo Bambang, o tema principal – além do comércio – foi a situação de dois brasileiros condenados à pena de morte na Indonésia por tráfico de drogas. Já a conversa com Morsi não tocou em temas geopolíticos e se centrou no desejo do Egito de tirar lições dos programas sociais brasileiros, como o Luz Para Todos e o Bolsa Família.

Com Erdogan, a conversa tratou de temas mais geopolíticos. Dilma disse que o líder turco, com quem o Brasil já se relaciona nos fóruns geopolíticos, "expressou as preocupações com a Síria" e endossou a visão brasileira de que "é muito difícil uma solução militar" para o conflito.

Com Obama, Dilma disse que teve apenas um encontro rápido e cordial – os dois se cruzaram quando ela deixou o palco ao abrir a sessão da ONU, e ele subiu para fazer o discurso seguinte. "Temos uma imensa simpatia (um pelo outro)", descreveu Dilma.

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